Hoje acordei cedo e não segui a rotina que gostaria. Enquanto organizava algumas ideias, percebi algo que talvez esteja presente na vida de todos nós e que, até então, eu nunca havia conseguido colocar em palavras.
Como estudiosa da mente e da saúde mental, valorizo profundamente aquilo que aprendemos ao observar a nós mesmos. Muitas vezes buscamos respostas em teorias, conceitos e explicações complexas. Outras vezes, porém, a vida nos conduz a lugares que a teoria, sozinha, não alcança.
Foi em um desses momentos que percebi algo que mudou a forma como observo os processos humanos. Não sei se o ser humano já observou que sua vida caminha em duas linhas paralelas. Uma delas é a linha da repetição: os padrões, escolhas, crenças e comportamentos que reproduzimos a partir da nossa história. A outra é a linha da construção: os recursos internos, os aprendizados, os vínculos saudáveis e as formas de autocuidado que desenvolvemos ao longo da vida. Durante muito tempo, acreditei que esses caminhos aconteciam separadamente. Hoje percebo que caminham juntos.
Foi justamente a ampliação da clínica que me permitiu enxergar isso. Todos nós, sem exceção, repetimos padrões familiares. Isso não é uma condenação. É constituição. É história. É linguagem. É a forma como nos organizamos subjetivamente a partir dos vínculos que nos trouxeram até aqui. Mas existe algo que diferencia aqueles que conseguem transcender determinados padrões: a capacidade de repetir, desconstruir e construir ao mesmo tempo.
No início, esse processo é quase invisível. As informações chegam misturadas às experiências. As rupturas acontecem enquanto ainda estamos tentando entender quem somos. Muitas vezes acreditamos que estamos apenas repetindo os mesmos erros, quando, silenciosamente, já estamos construindo recursos para sair deles. Foi aí que percebi algo que nunca havia colocado em palavras: enquanto uma parte de nós repete aquilo que aprendeu, outra já está construindo aquilo que um dia permitirá transcender a repetição.
Esses dois movimentos acontecem simultaneamente. Enquanto uma sustenta a dinâmica conhecida, outra começa a esvaziar silenciosamente aquilo que já não faz sentido. Enquanto uma repete, outra aprende. Enquanto uma sofre, outra observa. Enquanto uma se apega ao que conhece, outra prepara o terreno para aquilo que ainda não conhece.
Talvez por isso a transformação humana seja tão difícil de perceber quando estamos vivendo o processo. O olhar costuma ficar preso ao sintoma, ao conflito ou à repetição. Poucas vezes observamos aquilo que está sendo construído paralelamente. E é justamente nesse ponto que a vida me parece extraordinária. Não esperamos estar curados para começar a viver. Vivemos enquanto aprendemos. Construímos enquanto desconstruímos. Amadurecemos enquanto ainda carregamos partes infantis buscando respostas.
Talvez seja por isso que algumas pessoas consigam olhar para trás e perceber que, mesmo nos períodos mais difíceis, algo importante estava sendo cultivado. Percebo que esse movimento costuma aparecer nas pequenas ações de autocuidado que desenvolvemos para sobreviver. É justamente nos terrenos mais áridos da nossa história — aqueles que muitas vezes gostaríamos de apagar — que também se encontra a possibilidade de reconhecer aquilo que fomos capazes de construir.
Vou dar um exemplo. Aprender artes marciais, manusear arma de fogo ou arma branca tinha, para mim, relação direta com aprender a me defender. Mas defender de quê? De quem? Por quê?
Com o tempo, percebi que a mesma parte de mim que carregava o medo começou a construir outra coisa: disciplina, responsabilidade e segurança. Aquilo que nasceu da necessidade de proteção transformou-se em uma forma de autocuidado. Por um lado, existia o domínio adquirido pela necessidade. Por outro, surgia a paz construída pelo cuidado. O conhecimento permaneceu, mas deixou de ocupar o centro da minha existência.
E talvez seja exatamente isso que aconteça em tantos aspectos da vida. O que começou como sobrevivência pode, com o tempo, transformar-se em sabedoria. O que começou como defesa pode transformar-se em discernimento. O que começou como dor pode transformar-se em serviço.
A neurociência talvez explique esse fenômeno através dos sistemas simpático e parassimpático. A psicologia poderia falar sobre sombra e integração. A psicanálise encontraria outras palavras para descrever a dinâmica entre sujeito, desejo e alteridade.
Eu, hoje, escolho chamá-la de capacidade de observação fora do centro. A capacidade de olhar para a própria história sem estar aprisionado nela. A capacidade de perceber não apenas aquilo que nos feriu, mas também aquilo que construímos enquanto tentávamos sobreviver.
Porque talvez a maior descoberta não seja perceber onde repetimos. Talvez a maior descoberta seja perceber que, enquanto repetíamos, também estávamos construindo. Não esperamos estar curados para começar a viver. Vivemos enquanto aprendemos.
E que, muitas vezes, a porta da prisão já estava aberta há anos. Apenas ainda não tínhamos percebido o quanto já havíamos caminhado para longe dela, construindo silenciosamente um caminho que, em algum momento, se tornará maior do que a própria repetição.





