quinta-feira, 26 de março de 2026

Anestesia Coletiva?

Como a normalização da violência e a sobrecarga de informação estão nos afastando da nossa própria humanidade

Abrir qualquer meio de comunicação hoje em dia tem me provocado um profundo desânimo.

Atuo diretamente no enfrentamento à violência contra a mulher e o que vejo não é apenas alarmante — é desestruturante. Existe uma violência crescente, uma omissão gritante e um abismo entre os números apresentados e a realidade vivida. Sabemos que as estatísticas não dão conta do cenário real, porque muitas mulheres sequer conseguem denunciar. O silêncio ainda é um dos maiores cúmplices da violência.

Mas há algo além dos números que me inquieta profundamente: sinto que estamos atravessando um colapso nas referências do masculino e do feminino, como se a própria estrutura social estivesse em processo de desorganização.

De um lado, movimentos como os chamados redpill operam a partir de ressentimento e hostilidade contra mulheres. De outro, observo distorções dentro do próprio movimento feminista, onde, em alguns espaços, a radicalização perde o eixo e enfraquece a essência da luta. No meio disso tudo, o que se instala é um ruído ensurdecedor — e, paradoxalmente, um silenciamento brutal do essencial.

É inconcebível que mulheres precisem andar armadas com spray de pimenta, canivetes ou armas de choque para garantir o mínimo de segurança — e ainda assim, muitas, inclusive treinadas, continuam sendo mortas por armas de fogo.

É devastador assistir a casos em que homens ferem ou matam crianças como forma de atingir mulheres. Isso não é apenas violência. É um colapso ético. Um cenário que, em muitos momentos, se assemelha a um verdadeiro espetáculo de horror.

E então me pergunto: em que momento nos perdemos?
Quando foi que nos afastamos tanto da nossa própria humanidade?

A sensação que me atravessa, sempre que paro para olhar com mais atenção, é a de que fomos, de alguma forma, hipnotizados. Como se estivéssemos vivendo em estado de inércia coletiva.

Observo discursos, comportamentos, reações — e o que vejo é uma população, em grande parte, paralisada. Não por falta de informação, mas talvez por excesso dela, sem elaboração.

Recentemente assisti ao documentário O Dilema das Redes, na Netflix. O que mais me impactou não foram apenas as revelações, mas o tom dos próprios criadores das redes sociais: não havia orgulho, havia preocupação. Muitos deles se afastaram das próprias criações ao perceberem os efeitos colaterais que ajudaram a desencadear.

A chamada “engenharia da manipulação” tem avançado silenciosamente — e vencido. A atenção, hoje, tem dono. E quando a atenção é capturada, a capacidade crítica começa a se deteriorar.

Estamos assistindo a uma realidade em que notícias de feminicídio, estupro ou tentativas de violência extrema começam a ser recebidas com uma naturalidade assustadora. Como se o absurdo tivesse sido incorporado ao cotidiano.

Falamos muito. Agimos pouco.

A informação perdeu espaço para o espetáculo. O sofrimento virou conteúdo. A dor virou consumo.

E a psicoeducação — que poderia ser um caminho de transformação — vai sendo empurrada para as margens, porque não gera o mesmo impacto imediato que o choque, o escândalo ou a indignação momentânea.

O problema, muitas vezes, deixou de ser tratado como algo a ser compreendido e transformado, e passou a ser utilizado como produto. Não é o fato de cobrar pelo cuidado em saúde mental que me inquieta — isso é legítimo. O que causa estranhamento é a forma como esse cuidado vem sendo, em alguns contextos, esvaziado, acelerado e, por vezes, superficializado.

No meio de tudo isso, o que mais me preocupa não é apenas a violência em si, mas a normalização dela.

Porque quando o horror deixa de nos mobilizar, corremos o risco de perder não apenas a capacidade de reagir — mas a própria capacidade de sentir.


Um convite à consciência

Antes de seguir para a próxima tela, faça uma pausa.

Respire fundo e se pergunte, com honestidade:

  • O que, dentro de mim, ainda se incomoda com tudo isso?
  • Em quais momentos eu percebo que estou apenas assistindo, sem agir?
  • Que tipo de violência eu tenho normalizado — dentro ou fora de mim?

Agora, escreva.
Sem filtro, sem julgamento.

A consciência começa quando aquilo que estava difuso ganha nome.

E talvez o primeiro passo para romper qualquer anestesia seja esse:
voltar a sentir — e sustentar o que se sente.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Lealdade familiar: o vínculo invisível que mantém o ciclo

 

A experiência de mulheres em situação de violência frequentemente é atravessada por uma pergunta silenciosa e dolorosa:

“Por que eu não consigo sair disso?”

Essa pergunta, muitas vezes carregada de culpa, revela não apenas uma situação atual, mas uma trama psíquica construída ao longo da história de vida. Para além das explicações superficiais, é fundamental compreender que muitos vínculos violentos se sustentam em padrões emocionais aprendidos e lealdades familiares inconscientes.

Este texto propõe um olhar ampliado: a mulher não permanece na violência por escolha consciente, mas porque, em muitos casos, seu sistema emocional foi estruturado dentro de referências onde o amor estava misturado com dor, silêncio ou abandono.

A construção do amor: o que se aprende na infância

O amor não é aprendido nos livros. Ele é aprendido dentro de casa.

É na convivência com os cuidadores que a criança constrói suas primeiras referências sobre:

  • o que é ser amado
  • o que é tolerável em uma relação
  • como lidar com conflitos
  • qual é o seu lugar dentro do vínculo

Quando esse ambiente é atravessado por violência, negligência ou instabilidade, a criança não interpreta isso como erro. Ela interpreta como normalidade.

Assim, forma-se um registro interno onde o amor pode incluir dor, medo ou submissão. Esse registro não é racional — é emocional, corporal e inconsciente.

Lealdade familiar: o vínculo invisível que mantém o ciclo

Toda família constrói, ainda que sem palavras, um sistema de valores, crenças e formas de amar. Dentro desse sistema, existe um impulso profundo de pertencimento.

Esse pertencimento pode gerar o que chamamos de lealdade invisível.

Na prática, isso significa que, inconscientemente, uma mulher pode:

  • repetir a história afetiva da mãe
  • tolerar o sofrimento que viu ser tolerado
  • permanecer em relações abusivas para não “romper” com o modelo familiar
  • sentir culpa ao tentar viver algo diferente

Essa lealdade não é consciente. Ela se manifesta como sensação de:

  • familiaridade com relações difíceis
  • dificuldade de sair, mesmo percebendo o sofrimento
  • medo de ficar só
  • dúvida constante sobre si mesma

É como se, internamente, houvesse uma pergunta não dita:
“Quem eu sou se eu não repetir essa história?”

Violência e vínculo: por que sair não é simples

A permanência em relações violentas não pode ser compreendida apenas pela lógica racional.

Ela envolve:

  • vínculo traumático (alternância entre dor e afeto)
  • baixa autoestima construída ao longo do tempo
  • normalização da violência
  • medo real ou simbólico de ruptura

Além disso, quando a história familiar já traz sofrimento semelhante, a relação violenta não parece completamente estranha — ela parece conhecida.

E o que é conhecido, mesmo que doloroso, pode ser sentido como mais seguro do que o desconhecido.

O corpo também participa dessa história

Experiências prolongadas de violência e estresse emocional podem impactar o corpo.

A ciência, especialmente através da psiconeuroimunologia, demonstra que o estresse crônico pode levar a:

  • alterações hormonais
  • inflamação persistente
  • aumento da sensibilidade à dor
  • desregulação do sistema imunológico

Condições como fibromialgia e doenças autoimunes, incluindo a tireoidite de Hashimoto, têm sido associadas, em diversos estudos, a históricos de estresse emocional intenso.

É fundamental compreender que isso não significa que a mulher “causou” a doença, mas que seu corpo participou de uma história que muitas vezes não pôde ser expressa.

O corpo, nesse sentido, pode tornar visível aquilo que foi silenciado.

Romper o ciclo: da lealdade à liberdade

Romper com padrões familiares não é um movimento simples, nem imediato. Trata-se de um processo que envolve consciência, elaboração emocional e reconstrução interna.

Alguns passos importantes incluem:

  1. Nomear a violência
    Reconhecer que determinadas experiências não são normais nem aceitáveis.
  2. Compreender a própria história
    Perceber que muitos padrões não começaram na própria vida, mas foram aprendidos.
  3. Elaborar a culpa
    Entender que viver diferente da família não é traição, mas transformação.
  4. Reconstruir a autoestima
    Retomar a percepção de valor e dignidade.
  5. Criar novos referenciais de amor
    Aprender, muitas vezes pela primeira vez, que relações podem ser seguras, respeitosas e recíprocas.

A mulher em situação de violência não está apenas diante de uma relação atual — ela está, muitas vezes, diante de uma história emocional que atravessa gerações.

A lealdade familiar, quando inconsciente, pode aprisionar. Mas quando se torna consciente, pode ser transformada.

Romper esse ciclo não significa negar a própria origem. Significa honrar a vida recebida, permitindo que ela siga em uma nova direção.

E, nesse movimento, algo profundamente potente acontece:
uma mulher que se liberta não transforma apenas a própria história — ela altera o curso de toda uma linhagem emocional.