sexta-feira, 24 de julho de 2026

Quando a noite começa: Judas, o desejo, a escolha e a violência contra a mulher

Uma leitura possível sobre livre-arbítrio, influência do mal, desejo, responsabilidade e a morte do objeto de desejo

Este texto não pretende refutar o Evangelho, tampouco estabelecer uma verdade definitiva sobre a narrativa de Judas. Propõe, antes, uma nova perspectiva de leitura sobre aquilo que aprendemos, não para substituir a fé, mas para ampliar o olhar e nos convidar a pensar sobre o que talvez ainda não tenhamos perguntado.

Há leituras bíblicas que nos fazem parar. Foi assim que aconteceu comigo ao reler o Evangelho de João. Eu já conhecia a história de Judas, sua traição e seu desfecho, mas, dessa vez, uma sequência narrativa me fez voltar ao texto.

Em João 13, durante a Última Ceia, Jesus anuncia que um dos discípulos o trairá. Judas recebe o pedaço de pão e João afirma: "E, tendo Judas recebido o bocado, imediatamente Satanás entrou nele." Então Jesus lhe diz: "O que você está fazendo, faça-o depressa." Judas sai. E João acrescenta: "E era noite."

A sequência é quase cinematográfica: Judas está entre os discípulos, recebe o bocado, Satanás entra nele, Jesus fala, Judas sai. E então vem a noite.

Em João, luz e trevas são categorias teológicas fundamentais. Por isso, essa informação aparentemente cronológica ganha uma dimensão simbólica: Judas sai da presença de Jesus e entra na noite.

Isso é muito forte.

Mas surge uma pergunta: Jesus estava falando com Judas ou com Satanás?

O texto grego de João 13:27 registra a fala dirigida a Judas: ho poieis, poieson tachion, algo próximo de "O que você está fazendo, faça-o depressa." Gramaticalmente, o destinatário imediato é Judas. O texto não diz que Jesus estava falando diretamente com Satanás.

Podemos, então, pensar em diferentes níveis de leitura. Literalmente, Jesus fala com Judas, que executará aquilo que decidiu fazer. Teologicamente, Jesus fala com Judas, mas reconhece que há uma força espiritual atuando naquela ação. Simbolicamente, Jesus não precisa discutir com Satanás: ele permite que aquilo que já está em movimento aconteça.

E aqui surge algo ainda mais perturbador:

Jesus não impede Judas.

Então precisamos perguntar: Judas poderia ter feito diferente?

Essa talvez seja a pergunta central. Existe, no Novo Testamento, uma tensão profunda entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. A morte de Jesus está inserida no plano das Escrituras, mas Judas continua sendo responsabilizado por sua traição.

Se Satanás entrou em Judas, Judas deixou de ser responsável?

A tradição cristã, de modo geral, responde que não. A influência do mal não transforma Judas em um robô. Ele continua conversando, negociando, recebendo dinheiro e participando conscientemente da entrega de Jesus.

Isso nos leva a outra questão: Satanás entrou em Judas porque Judas estava vulnerável ao mal, ou Judas tornou-se vulnerável porque Satanás entrou nele?

O texto não responde diretamente.

Mas existe uma sequência anterior que merece atenção. Em João 12:6, Judas já havia sido apresentado como alguém que roubava da bolsa comum dos discípulos. Quando chegamos a João 13, portanto, a entrada de Satanás não precisa ser compreendida necessariamente como o começo da história. Pode ser o ápice de um processo.

Judas não parece ser um homem que desconhecia Jesus. Ele caminhou com ele, ouviu seus ensinamentos, presenciou milagres e participou da comunidade dos discípulos. Ele conhecia aquilo que Jesus ensinava. E, ainda assim, escolheu outra direção.

Talvez o problema não tenha sido falta de conhecimento, mas um conflito entre conhecimento e desejo.

E aqui entra uma questão que atravessa tanto a compreensão teológica quanto a experiência humana: quando seguimos os desejos da carne, estamos necessariamente escolhendo o mal?

Na tradição paulina, "carne" não significa simplesmente corpo, nem significa que todo desejo seja mau. O problema não está em desejar. A questão é: quem governa o desejo?

Talvez seja essa a chave da distinção entre um modo egocêntrico e um modo cristocêntrico. Não se trata de dizer que todo desejo é mau, mas de perguntar qual princípio ocupa o centro da decisão. O desejo existe, mas não precisa ser soberano.

Talvez Judas não tenha começado dizendo: "Quero fazer o mal." Talvez tenha começado simplesmente querendo alguma coisa para si.

E é aí que o processo se torna assustadoramente humano.

O mal, muitas vezes, não começa com a intenção consciente de fazer o mal. Pode começar com um desejo que encontra uma justificativa. Depois, uma racionalização. Em seguida, uma pequena concessão. Até que o sujeito começa a colocar seu desejo acima do princípio que dizia seguir.

Primeiro: "Eu quero isso." Depois: "Eu mereço isso." Em seguida: "Não é tão grave." Até chegar a: "Agora não tem mais volta."

Não como uma fórmula universal, mas como uma possibilidade de compreender como uma decisão moral pode ser construída gradualmente.

E então voltamos à frase de Jesus:

"O que você está fazendo, faça-o depressa."

E se Jesus não estivesse ordenando Judas a traí-lo?

E se estivesse reconhecendo uma decisão que Judas já havia tomado?

Essa possibilidade muda a leitura da cena. Jesus não precisa manipular Judas, obrigá-lo ou convencê-lo. Ele simplesmente reconhece aquilo que já está em movimento.

E Judas sai.

E era noite.

Talvez a noite não seja apenas uma informação sobre o horário. Talvez João esteja mostrando a direção que Judas escolheu. Ele sai fisicamente da ceia, mas, simbolicamente, também sai da luz.

Não porque tenha perdido a capacidade de pensar.

Mas porque passou a pensar a partir de outro centro.

E então surge outra pergunta: Judas conseguiu prever as consequências de sua escolha?

Aqui precisamos fazer uma distinção importante. A ideia popular de que uma emoção intensa dura apenas "trinta segundos" é uma simplificação. Uma resposta emocional pode começar rapidamente, mas sua experiência subjetiva, a ruminação e a ativação fisiológica podem durar muito mais. Ainda assim, uma reação impulsiva é diferente de uma decisão construída.

Em Mateus, Judas procura os sacerdotes e pergunta: "O que me dareis, e eu vo-lo entregarei?" Existe negociação. Existe avaliação de benefício. Existe acordo. Existe decisão.

Pensamento. Possibilidade. Negociação. Acordo. Oportunidade. Execução.

Se pensarmos na categoria bíblica de pecado premeditado, podemos perguntar: o pecado começa na ação ou começa quando a pessoa começa a negociar internamente com aquilo que sabe que não deveria fazer?

E então surge outra questão:

Quando João afirma que Satanás entrou em Judas, estamos diante do início da decisão ou do momento em que uma decisão já construída chega ao seu ponto de concretização?

Não sabemos.

Mas talvez essa pergunta nos permita compreender que a influência do mal não precisa substituir a decisão humana. Pode encontrar desejos, vulnerabilidades e escolhas que já estão em movimento.

Judas, então, torna-se uma figura ainda mais complexa. Ele nos coloca diante de uma pergunta que continua atual:

Até onde vai a liberdade humana quando alguém está submetido a forças que o ultrapassam?

Essa pergunta dialoga profundamente com a Psicanálise. O sujeito não é completamente transparente para si mesmo. Existem desejos, conflitos, fantasias e forças inconscientes que participam de suas escolhas. Mas reconhecer essas determinações não significa eliminar toda responsabilidade.

Talvez seja justamente nessa tensão que Judas permaneça tão atual.

Deus sabe, mas saber não significa necessariamente obrigar. O conhecimento divino não precisa ser a causa da escolha humana. Judas poderia ter feito diferente?

Talvez sim.

Mas não fez.

E é exatamente isso que torna sua história tão trágica.

A partir daqui, a narrativa bíblica pode nos conduzir a uma reflexão contemporânea sobre a violência contra a mulher.

Não para dizer que Judas representa um agressor. Não para afirmar que todo agressor funciona como Judas. E muito menos para transformar a Bíblia em um manual de psicopatologia. A proposta é investigar se alguns elementos dessa narrativa podem nos ajudar a pensar fenômenos humanos que ainda atravessam nossa sociedade.

Porque a violência contra a mulher também nos obriga a perguntar:

Em que momento uma pessoa deixa de enxergar o outro como sujeito e passa a enxergá-lo como objeto de seu desejo, de sua conquista, de seu poder ou de sua posse?

Algumas violências são impulsivas. Outras são construídas durante meses ou anos. Existem situações que envolvem controle, vigilância, manipulação, ameaça, isolamento e violência patrimonial. Há atos violentos que não acontecem porque o agressor "perdeu o controle", mas porque buscou deliberadamente controlar a vida da mulher.

Por isso, não podemos explicar toda violência como um simples "sequestro emocional". Existem violências precedidas por pensamentos, justificativas, racionalizações e decisões. Assim como a traição de Judas, em nossa hipótese de leitura, não parece nascer de um único instante, algumas violências também não começam no momento em que o ato acontece. Elas podem ser construídas muito antes.

E aqui a reflexão sobre Judas encontra uma questão especialmente delicada:

O que acontece quando o desejo não suporta a existência do outro para além da própria fantasia?

Essa pergunta nos leva, com todos os cuidados necessários, a determinados casos de feminicídio seguidos de suicídio. Não como explicação universal, mas em situações nas quais a mulher é vivenciada pelo homem como objeto de posse, e sua separação é experimentada como uma perda intolerável. Ela decide partir. Escolhe. Diz não. Passa a existir sem ele.

Em situações extremas, a morte do outro pode aparecer como uma tentativa de impedir a separação. E, posteriormente, a própria morte pode acontecer.

São fenômenos diferentes e não podem ser igualados. Mas ambos podem nos conduzir a uma pergunta comum:

O que acontece quando alguém não consegue suportar a perda do objeto que organizava seu desejo?

Talvez seja aqui que a hipótese da morte do objeto de desejo ganhe uma dimensão particularmente profunda na história de Judas.

Talvez Judas não tenha perdido apenas Jesus. Talvez tenha perdido, junto com Jesus, a imagem de mundo que sustentava seu desejo. Talvez o objeto real não correspondesse ao objeto imaginado. Talvez a realidade tenha destruído a fantasia.

Não sabemos se foi isso que aconteceu. O texto bíblico não nos autoriza a afirmar uma única motivação. Pode ter havido ganância, frustração, ambição, expectativas messiânicas, desencantamento, influência espiritual ou uma combinação de fatores que jamais conseguiremos reconstruir completamente.

Mas podemos perguntar.

E talvez seja essa a função de uma leitura como esta.

Judas desejou.

Judas foi influenciado.

Judas escolheu.

Judas agiu.

E talvez não tenha conseguido antecipar toda a extensão de sua escolha.

Quando finalmente encontrou a consequência, já não havia caminho de volta.

Jesus morreu.

E Judas também.

Talvez a tragédia esteja justamente aí: o desejo que governou Judas acabou destruindo aquilo que ele desejava e, depois, destruiu também aquele que desejou.

E talvez essa seja uma das perguntas que precisamos levar para além das páginas da Bíblia e colocar diante da violência contra a mulher: não apenas o que acontece no instante em que a violência se manifesta, mas o que foi sendo construído antes dela.

O desejo de possuir.

A dificuldade de aceitar limites.

A incapacidade de reconhecer a autonomia do outro.

A recusa da separação.

A impossibilidade de elaborar a perda.

Porque ninguém pertence a ninguém.

O outro é sempre outro.

E talvez o amor só seja possível quando conseguimos suportar essa verdade.

Judas saiu.

E era noite.

Talvez a noite não comece quando perdemos a consciência.

Talvez ela comece quando, conscientes, permitimos que o desejo governe nossas escolhas e deixamos de enxergar o outro como sujeito.

E talvez seja justamente aí que essa antiga história continue falando conosco.

Não para nos oferecer respostas prontas.

Mas para nos obrigar a fazer perguntas que ainda não terminamos de responder.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Geri's Game (Pixar): O que, de fato, estava em jogo?

À primeira vista, a resposta parece simples: uma partida de xadrez, dois adversários e um prêmio, uma
dentadura. Mas será que era apenas isso?

Enquanto assistia ao curta Geri's Game, da Pixar, tive a impressão de que o verdadeiro jogo nunca aconteceu sobre o tabuleiro.

De um lado, um Geri silencioso. Seus movimentos são cautelosos, o semblante é sério e o sorriso parece ausente. Do outro, um Geri expansivo, confiante e provocador. Ele ri, desafia, comemora cada jogada e parece divertir-se não apenas com a partida, mas com a possibilidade de vencer.

Talvez não estejamos diante de um homem jogando contra si mesmo. Talvez estejamos diante de duas maneiras de existir que convivem dentro do mesmo sujeito.

Quantas vezes também nos dividimos assim?

Há dias em que somos prudentes e recolhidos. Em outros, a autoconfiança nos faz acreditar que nada poderá nos atingir. Oscilamos entre o medo e a coragem, entre a contenção e o impulso. Somos feitos dessas alternâncias.

O jogo avança até que algo inesperado acontece. O Geri mais reservado leva a mão ao peito e aparenta um mal-estar. A partida é interrompida. O adversário, até então seguro de si, abandona imediatamente a postura de quem dominava o jogo. A preocupação ocupa o lugar da euforia.

Essa cena me fez pensar que existe um ponto em que toda sensação de controle vacila. Basta que a fragilidade apareça para que nos lembremos da nossa condição humana. Nenhuma estratégia é maior do que a possibilidade da perda. Quando a vulnerabilidade entra em cena, até aquilo que parecia inabalável se reorganiza.

É justamente nesse instante que a partida muda de direção.

Ao recuperar a dentadura, o Geri silencioso finalmente sorri.

Talvez ela seja apenas o prêmio do jogo.

Mas, enquanto assistia, não consegui deixar de pensar que aquela dentadura simbolizava algo maior. Ela não devolve apenas um sorriso. Ela devolve a possibilidade de o sujeito voltar a se apresentar ao mundo. Recupera sua expressão, sua dignidade, sua presença. Como se dissesse que, apesar das perdas, ainda existe algo em nós que merece permanecer vivo.

Talvez a verdadeira disputa nunca tenha sido pela vitória, mas pela preservação desse lugar interno que continua capaz de desejar, de brincar, de criar estratégias e de sorrir.

Nem sempre venceremos nossas batalhas internas. Às vezes, seremos dominados pelo medo. Em outras, pela impulsividade, pela ansiedade ou pela tristeza. O conflito faz parte da experiência humana.

O que talvez não possamos perder é aquilo que nos permite continuar sendo nós mesmos.

Talvez a pergunta nunca tenha sido quem venceu a partida.

A verdadeira pergunta é: o que, dentro de nós, precisa ser preservado para que continuemos existindo com dignidade?

Cada pessoa possui a sua "dentadura".

Para alguns, ela tem o rosto de um filho ou de um neto. Para outros, é uma amizade, uma memória, uma vocação, um trabalho construído com sentido, uma fé que resistiu às tempestades ou um sonho que se recusou a morrer.

Não importa exatamente o que seja.

Importa reconhecê-lo antes que as perdas nos convençam de que já não vale a pena continuar.

Esta não pretende ser uma interpretação definitiva do curta. É apenas a leitura que ele despertou em mim.

Talvez você encontre outra.

E é justamente aí que reside a beleza das boas histórias: elas não terminam quando a tela escurece. Continuam vivendo em quem se permite escutá-las.

Este é um convite à reflexão sobre os muitos atravessamentos da experiência humana. Embora minha trajetória clínica seja profundamente marcada pela escuta de mulheres em situação de violência, acredito que escutar é, antes de tudo, um compromisso com o ser humano. Talvez seja esse também o sentido dos Rascunhos de Escuta: encontrar, nas histórias mais simples, perguntas que continuam nos acompanhando muito depois que elas terminam.

Assista o video aqui

terça-feira, 30 de junho de 2026

Resenha – A Regra do Jogo, de Rafael Azevedo

Toda escolha produz efeitos. Algumas consequências aparecem imediatamente; outras atravessam o tempo e moldam silenciosamente a forma como pensamos, nos relacionamos e construímos nossa história. Sob essa perspectiva, refletir sobre princípios de vida não significa apenas discutir moralidade, mas compreender os caminhos pelos quais nossas decisões participam da formação do caráter e da organização da própria existência.

É nesse horizonte que se insere A Regra do Jogo, de Rafael Azevedo. Utilizando o universo do futebol como metáfora da existência, o autor apresenta vinte e cinco princípios que dialogam com disciplina, perseverança, responsabilidade, relacionamentos, sabedoria, espiritualidade e propósito. A linguagem é acessível e as imagens construídas ao longo da narrativa tornam a leitura leve, sem abrir mão da profundidade.

Embora organizados sob o nome de "regras", esses princípios não são apresentados como mecanismos de controle, mas como convites à reflexão. A proposta da obra não consiste em estabelecer uma relação de culpa com o leitor, e sim em estimulá-lo a examinar sua própria caminhada à luz da fé cristã, reconhecendo que toda transformação exige disposição para rever escolhas, aprender e perseverar.

Um dos aspectos que mais enriquecem a leitura é sua estrutura. Ao final de cada capítulo, o autor propõe um exercício de aplicação prática e uma oração relacionada ao tema desenvolvido. Esse recurso amplia a experiência do leitor, permitindo que o conteúdo ultrapasse o campo da compreensão intelectual e encontre espaço na vivência cotidiana. A leitura deixa de ser apenas informativa para tornar-se também um exercício de interioridade.

Entre os diversos capítulos, O Apito Final merece destaque. Utilizando o encerramento de uma partida como metáfora da finitude humana, Rafael Azevedo convida o leitor a refletir sobre o tempo, o legado e a responsabilidade pelas próprias escolhas. O texto recorda que nenhuma estratégia pode ser alterada após o encerramento do jogo, conduzindo naturalmente à consciência de que cada dia representa uma oportunidade de construir a história que desejamos deixar.

Ao longo da obra, percebe-se uma preocupação constante em aproximar valores espirituais da vida prática. Questões como disciplina, domínio próprio, responsabilidade, perseverança, relacionamentos saudáveis, trabalho diligente e administração da própria vida são apresentadas como princípios que ultrapassam o discurso religioso e encontram expressão concreta no cotidiano.

Mais do que reunir orientações para uma vida cristã, A Regra do Jogo propõe uma reflexão sobre responsabilidade pessoal. Em uma sociedade frequentemente marcada pela busca de resultados imediatos, a obra recorda que o caráter não é formado em grandes acontecimentos isolados, mas nas pequenas decisões repetidas diariamente. Essa talvez seja sua principal contribuição: lembrar que compreender uma verdade é importante, mas é a disposição para vivê-la que efetivamente transforma uma trajetória.

Ao concluir a leitura, permanece a impressão de que o verdadeiro jogo não acontece apenas nos grandes momentos da vida, mas sobretudo nas escolhas discretas, feitas quando ninguém está olhando. É nesse campo silencioso que princípios deixam de ser conceitos e passam a se tornar modo de viver.

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

O Caminho Oculto da Construção

Hoje acordei cedo e não segui a rotina que gostaria. Enquanto organizava algumas ideias, percebi algo que talvez esteja presente na vida de todos nós e que, até então, eu nunca havia conseguido colocar em palavras.

Como estudiosa da mente e da saúde mental, valorizo profundamente aquilo que aprendemos ao observar a nós mesmos. Muitas vezes buscamos respostas em teorias, conceitos e explicações complexas. Outras vezes, porém, a vida nos conduz a lugares que a teoria, sozinha, não alcança.

Foi em um desses momentos que percebi algo que mudou a forma como observo os processos humanos. Não sei se o ser humano já observou que sua vida caminha em duas linhas paralelas. Uma delas é a linha da repetição: os padrões, escolhas, crenças e comportamentos que reproduzimos a partir da nossa história. A outra é a linha da construção: os recursos internos, os aprendizados, os vínculos saudáveis e as formas de autocuidado que desenvolvemos ao longo da vida. Durante muito tempo, acreditei que esses caminhos aconteciam separadamente. Hoje percebo que caminham juntos.

Foi justamente a ampliação da clínica que me permitiu enxergar isso. Todos nós, sem exceção, repetimos padrões familiares. Isso não é uma condenação. É constituição. É história. É linguagem. É a forma como nos organizamos subjetivamente a partir dos vínculos que nos trouxeram até aqui. Mas existe algo que diferencia aqueles que conseguem transcender determinados padrões: a capacidade de repetir, desconstruir e construir ao mesmo tempo.

No início, esse processo é quase invisível. As informações chegam misturadas às experiências. As rupturas acontecem enquanto ainda estamos tentando entender quem somos. Muitas vezes acreditamos que estamos apenas repetindo os mesmos erros, quando, silenciosamente, já estamos construindo recursos para sair deles. Foi aí que percebi algo que nunca havia colocado em palavras: enquanto uma parte de nós repete aquilo que aprendeu, outra já está construindo aquilo que um dia permitirá transcender a repetição.

Esses dois movimentos acontecem simultaneamente. Enquanto uma sustenta a dinâmica conhecida, outra começa a esvaziar silenciosamente aquilo que já não faz sentido. Enquanto uma repete, outra aprende. Enquanto uma sofre, outra observa. Enquanto uma se apega ao que conhece, outra prepara o terreno para aquilo que ainda não conhece.

Talvez por isso a transformação humana seja tão difícil de perceber quando estamos vivendo o processo. O olhar costuma ficar preso ao sintoma, ao conflito ou à repetição. Poucas vezes observamos aquilo que está sendo construído paralelamente. E é justamente nesse ponto que a vida me parece extraordinária. Não esperamos estar curados para começar a viver. Vivemos enquanto aprendemos. Construímos enquanto desconstruímos. Amadurecemos enquanto ainda carregamos partes infantis buscando respostas.

Talvez seja por isso que algumas pessoas consigam olhar para trás e perceber que, mesmo nos períodos mais difíceis, algo importante estava sendo cultivado. Percebo que esse movimento costuma aparecer nas pequenas ações de autocuidado que desenvolvemos para sobreviver. É justamente nos terrenos mais áridos da nossa história — aqueles que muitas vezes gostaríamos de apagar — que também se encontra a possibilidade de reconhecer aquilo que fomos capazes de construir.

Vou dar um exemplo. Aprender artes marciais, manusear arma de fogo ou arma branca tinha, para mim, relação direta com aprender a me defender. Mas defender de quê? De quem? Por quê?

Com o tempo, percebi que a mesma parte de mim que carregava o medo começou a construir outra coisa: disciplina, responsabilidade e segurança. Aquilo que nasceu da necessidade de proteção transformou-se em uma forma de autocuidado. Por um lado, existia o domínio adquirido pela necessidade. Por outro, surgia a paz construída pelo cuidado. O conhecimento permaneceu, mas deixou de ocupar o centro da minha existência.

E talvez seja exatamente isso que aconteça em tantos aspectos da vida. O que começou como sobrevivência pode, com o tempo, transformar-se em sabedoria. O que começou como defesa pode transformar-se em discernimento. O que começou como dor pode transformar-se em serviço.

A neurociência talvez explique esse fenômeno através dos sistemas simpático e parassimpático. A psicologia poderia falar sobre sombra e integração. A psicanálise encontraria outras palavras para descrever a dinâmica entre sujeito, desejo e alteridade.

Eu, hoje, escolho chamá-la de capacidade de observação fora do centro. A capacidade de olhar para a própria história sem estar aprisionado nela. A capacidade de perceber não apenas aquilo que nos feriu, mas também aquilo que construímos enquanto tentávamos sobreviver.

Porque talvez a maior descoberta não seja perceber onde repetimos. Talvez a maior descoberta seja perceber que, enquanto repetíamos, também estávamos construindo. Não esperamos estar curados para começar a viver. Vivemos enquanto aprendemos.

E que, muitas vezes, a porta da prisão já estava aberta há anos. Apenas ainda não tínhamos percebido o quanto já havíamos caminhado para longe dela, construindo silenciosamente um caminho que, em algum momento, se tornará maior do que a própria repetição.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A garota em Entre Quatro Paredes: uma leitura psicanalítica



No filme Entre Quatro Paredes, a personagem da garota não se limita a um papel narrativo secundário; ela se constitui como um verdadeiro eixo psíquico da história. É nela que o enredo ganha densidade clínica, pois sua presença não se define apenas pelo que é dito ou mostrado, mas sobretudo pelo que é sustentado em silêncio. A garota encarna o ponto onde o trauma familiar se deposita, se organiza e, potencialmente, pode ser transformado.

Dentro da economia psíquica dessa família, ela ocupa o lugar de porta-sintoma. Aquilo que não pôde ser simbolizado pelos pais — especialmente a violência, o medo e o desamparo — encontra nela uma via de expressão. Inspirados nas formulações de René Kaës, podemos compreender que a garota carrega conteúdos psíquicos que não são exclusivamente seus, mas que pertencem ao grupo familiar e foram transmitidos sem elaboração. Essa transmissão se manifesta em sua forma de estar no mundo: uma hipervigilância constante, uma leitura aguçada — por vezes excessiva — do ambiente emocional e uma dificuldade persistente em confiar nos vínculos. Trata-se de uma subjetividade organizada em torno da sobrevivência, onde sentir é perigoso, mas não sentir é impossível, criando uma tensão contínua entre presença e retraimento.

Um dos aspectos mais delicados dessa construção psíquica é a possibilidade de uma identificação cindida. A garota pode, simultaneamente, identificar-se com a mãe — na dor, na impotência e na posição de vulnerabilidade — e com o pai — na agressividade, no controle e nas formas defensivas de lidar com o mundo. Esse fenômeno, discutido por Sándor Ferenczi em suas reflexões sobre o trauma, não representa uma escolha consciente, mas uma estratégia psíquica de sobrevivência. Ao incorporar aspectos do agressor, a criança encontra uma maneira de não ser completamente devastada por ele. No entanto, essa cisão interna tende a produzir efeitos duradouros, interferindo na construção da identidade, nos vínculos afetivos e na forma como ela lidará com conflitos ao longo da vida.

Quando a simbolização falha, o corpo frequentemente assume o lugar da linguagem. A garota expressa, por meio de gestos, silêncios e reações aparentemente desproporcionais, aquilo que não consegue nomear. Nesse ponto, as contribuições de Donald Winnicott são fundamentais para compreender que a falha ambiental compromete a continuidade do ser. Em um ambiente marcado pela instabilidade e pela violência, a criança não encontra condições para desenvolver sua espontaneidade. Em vez disso, adapta-se, muitas vezes constituindo um falso self — uma organização psíquica voltada para a sobrevivência, mas que implica um distanciamento progressivo de sua experiência autêntica.

A entrada de um novo parceiro na vida da mãe e o contato com uma configuração familiar diferente introduzem um elemento de ruptura, mas também de profundo estranhamento. Para a garota, o novo não é necessariamente sinônimo de segurança. Pelo contrário, pode ser vivido como instabilidade ou ameaça, uma vez que seu referencial interno foi estruturado no caos. O que é previsível, ainda que doloroso, tende a ser mais reconhecível do que aquilo que se apresenta como desconhecido. Nesse contexto, ela pode reagir rejeitando vínculos potencialmente saudáveis ou testando-os de maneira constante, como se buscasse confirmar a inevitabilidade da falha.

A posição subjetiva da garota a coloca em uma encruzilhada psíquica decisiva. Ela pode se tornar uma repetidora do trauma, recriando inconscientemente padrões relacionais semelhantes aos que vivenciou, ou pode, caso encontre espaço para elaboração, tornar-se agente de ruptura. Retomando Sigmund Freud, a compulsão à repetição indica que aquilo que não é simbolizado tende a se repetir. No entanto, essa repetição também carrega, paradoxalmente, uma tentativa de elaboração. Quando há possibilidade de escuta, nomeação e reconhecimento do sofrimento, o que antes se repetia de forma silenciosa pode começar a se organizar como narrativa.

Assim, a garota em Entre Quatro Paredes não é apenas uma personagem afetada pela violência, mas uma figura que revela, com precisão, os efeitos profundos da transmissão psíquica do trauma. Ao mesmo tempo, ela aponta para uma possibilidade fundamental: a de que a história, ainda que marcada pela dor, não está completamente determinada. Entre a repetição e a elaboração, existe um espaço — e é nesse espaço que a escuta, a simbolização e o cuidado podem operar como ruptura.

Um detalhe aparentemente simples, mas de grande densidade clínica, aparece quando um dos personagens comenta sobre o “sorriso estranho” da garota em uma fotografia. À primeira vista, a observação pode soar apenas como uma impressão subjetiva, mas, sob uma leitura psicanalítica, ela revela algo mais profundo: um descompasso entre a expressão e a experiência emocional esperada. Não se trata de um sorriso que indica conforto genuíno ou bem-estar consciente, mas de um sorriso que denuncia uma adaptação psíquica a um ambiente traumático. 

A garota não sorri porque se sente segura; ela sorri porque aprendeu, muitas vezes de forma inconsciente, a se ajustar às exigências emocionais daquele contexto. Esse tipo de expressão pode ser compreendido à luz das formulações de Sándor Ferenczi sobre o trauma, nas quais a criança, diante da violência, tende a incorporar aspectos do ambiente — inclusive do agressor — como estratégia de sobrevivência. 

Em diálogo com Donald Winnicott, é possível pensar esse sorriso como manifestação de um falso self: uma organização defensiva que garante a continuidade do vínculo, ainda que ao custo de um afastamento da experiência emocional autêntica. Assim, o que causa estranhamento não é exatamente o sorriso em si, mas o fato de que ele aparece onde, do ponto de vista afetivo, não deveria estar — revelando que o sofrimento, nesse caso, não se apresenta de forma explícita, mas disfarçado em uma adaptação silenciosa e profundamente sofisticada.

A indicação de Entre Quatro Paredes se sustenta menos como um convite ao entretenimento e mais como uma convocação à escuta. Trata-se de um filme que não se encerra nos acontecimentos que apresenta, mas que continua operando no espectador, exigindo elaboração posterior. Ao escolher assisti-lo, não se trata apenas de acompanhar uma história, mas de se permitir atravessar por ela — reconhecendo que, por trás de gestos aparentemente banais, como um silêncio prolongado ou um sorriso deslocado, existem dinâmicas psíquicas complexas que merecem ser nomeadas.

Assim, mais do que recomendar, este é um convite a olhar com mais precisão para aquilo que, muitas vezes, passa despercebido: os sinais sutis da violência, as formas silenciosas de adaptação e, sobretudo, as possibilidades de ruptura que emergem quando há espaço para escuta e simbolização. É nesse ponto que o filme deixa de ser apenas narrativa e se transforma em experiência — uma experiência que, uma vez vista, dificilmente se esquece.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Anestesia Coletiva?

Como a normalização da violência e a sobrecarga de informação estão nos afastando da nossa própria humanidade

Abrir qualquer meio de comunicação hoje em dia tem me provocado um profundo desânimo.

Atuo diretamente no enfrentamento à violência contra a mulher e o que vejo não é apenas alarmante — é desestruturante. Existe uma violência crescente, uma omissão gritante e um abismo entre os números apresentados e a realidade vivida. Sabemos que as estatísticas não dão conta do cenário real, porque muitas mulheres sequer conseguem denunciar. O silêncio ainda é um dos maiores cúmplices da violência.

Mas há algo além dos números que me inquieta profundamente: sinto que estamos atravessando um colapso nas referências do masculino e do feminino, como se a própria estrutura social estivesse em processo de desorganização.

De um lado, movimentos como os chamados redpill operam a partir de ressentimento e hostilidade contra mulheres. De outro, observo distorções dentro do próprio movimento feminista, onde, em alguns espaços, a radicalização perde o eixo e enfraquece a essência da luta. No meio disso tudo, o que se instala é um ruído ensurdecedor — e, paradoxalmente, um silenciamento brutal do essencial.

É inconcebível que mulheres precisem andar armadas com spray de pimenta, canivetes ou armas de choque para garantir o mínimo de segurança — e ainda assim, muitas, inclusive treinadas, continuam sendo mortas por armas de fogo.

É devastador assistir a casos em que homens ferem ou matam crianças como forma de atingir mulheres. Isso não é apenas violência. É um colapso ético. Um cenário que, em muitos momentos, se assemelha a um verdadeiro espetáculo de horror.

E então me pergunto: em que momento nos perdemos?
Quando foi que nos afastamos tanto da nossa própria humanidade?

A sensação que me atravessa, sempre que paro para olhar com mais atenção, é a de que fomos, de alguma forma, hipnotizados. Como se estivéssemos vivendo em estado de inércia coletiva.

Observo discursos, comportamentos, reações — e o que vejo é uma população, em grande parte, paralisada. Não por falta de informação, mas talvez por excesso dela, sem elaboração.

Recentemente assisti ao documentário O Dilema das Redes, na Netflix. O que mais me impactou não foram apenas as revelações, mas o tom dos próprios criadores das redes sociais: não havia orgulho, havia preocupação. Muitos deles se afastaram das próprias criações ao perceberem os efeitos colaterais que ajudaram a desencadear.

A chamada “engenharia da manipulação” tem avançado silenciosamente — e vencido. A atenção, hoje, tem dono. E quando a atenção é capturada, a capacidade crítica começa a se deteriorar.

Estamos assistindo a uma realidade em que notícias de feminicídio, estupro ou tentativas de violência extrema começam a ser recebidas com uma naturalidade assustadora. Como se o absurdo tivesse sido incorporado ao cotidiano.

Falamos muito. Agimos pouco.

A informação perdeu espaço para o espetáculo. O sofrimento virou conteúdo. A dor virou consumo.

E a psicoeducação — que poderia ser um caminho de transformação — vai sendo empurrada para as margens, porque não gera o mesmo impacto imediato que o choque, o escândalo ou a indignação momentânea.

O problema, muitas vezes, deixou de ser tratado como algo a ser compreendido e transformado, e passou a ser utilizado como produto. Não é o fato de cobrar pelo cuidado em saúde mental que me inquieta — isso é legítimo. O que causa estranhamento é a forma como esse cuidado vem sendo, em alguns contextos, esvaziado, acelerado e, por vezes, superficializado.

No meio de tudo isso, o que mais me preocupa não é apenas a violência em si, mas a normalização dela.

Porque quando o horror deixa de nos mobilizar, corremos o risco de perder não apenas a capacidade de reagir — mas a própria capacidade de sentir.


Um convite à consciência

Antes de seguir para a próxima tela, faça uma pausa.

Respire fundo e se pergunte, com honestidade:

  • O que, dentro de mim, ainda se incomoda com tudo isso?
  • Em quais momentos eu percebo que estou apenas assistindo, sem agir?
  • Que tipo de violência eu tenho normalizado — dentro ou fora de mim?

Agora, escreva.
Sem filtro, sem julgamento.

A consciência começa quando aquilo que estava difuso ganha nome.

E talvez o primeiro passo para romper qualquer anestesia seja esse:
voltar a sentir — e sustentar o que se sente.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Lealdade familiar: o vínculo invisível que mantém o ciclo

 

A experiência de mulheres em situação de violência frequentemente é atravessada por uma pergunta silenciosa e dolorosa:

“Por que eu não consigo sair disso?”

Essa pergunta, muitas vezes carregada de culpa, revela não apenas uma situação atual, mas uma trama psíquica construída ao longo da história de vida. Para além das explicações superficiais, é fundamental compreender que muitos vínculos violentos se sustentam em padrões emocionais aprendidos e lealdades familiares inconscientes.

Este texto propõe um olhar ampliado: a mulher não permanece na violência por escolha consciente, mas porque, em muitos casos, seu sistema emocional foi estruturado dentro de referências onde o amor estava misturado com dor, silêncio ou abandono.

A construção do amor: o que se aprende na infância

O amor não é aprendido nos livros. Ele é aprendido dentro de casa.

É na convivência com os cuidadores que a criança constrói suas primeiras referências sobre:

  • o que é ser amado
  • o que é tolerável em uma relação
  • como lidar com conflitos
  • qual é o seu lugar dentro do vínculo

Quando esse ambiente é atravessado por violência, negligência ou instabilidade, a criança não interpreta isso como erro. Ela interpreta como normalidade.

Assim, forma-se um registro interno onde o amor pode incluir dor, medo ou submissão. Esse registro não é racional — é emocional, corporal e inconsciente.

Lealdade familiar: o vínculo invisível que mantém o ciclo

Toda família constrói, ainda que sem palavras, um sistema de valores, crenças e formas de amar. Dentro desse sistema, existe um impulso profundo de pertencimento.

Esse pertencimento pode gerar o que chamamos de lealdade invisível.

Na prática, isso significa que, inconscientemente, uma mulher pode:

  • repetir a história afetiva da mãe
  • tolerar o sofrimento que viu ser tolerado
  • permanecer em relações abusivas para não “romper” com o modelo familiar
  • sentir culpa ao tentar viver algo diferente

Essa lealdade não é consciente. Ela se manifesta como sensação de:

  • familiaridade com relações difíceis
  • dificuldade de sair, mesmo percebendo o sofrimento
  • medo de ficar só
  • dúvida constante sobre si mesma

É como se, internamente, houvesse uma pergunta não dita:
“Quem eu sou se eu não repetir essa história?”

Violência e vínculo: por que sair não é simples

A permanência em relações violentas não pode ser compreendida apenas pela lógica racional.

Ela envolve:

  • vínculo traumático (alternância entre dor e afeto)
  • baixa autoestima construída ao longo do tempo
  • normalização da violência
  • medo real ou simbólico de ruptura

Além disso, quando a história familiar já traz sofrimento semelhante, a relação violenta não parece completamente estranha — ela parece conhecida.

E o que é conhecido, mesmo que doloroso, pode ser sentido como mais seguro do que o desconhecido.

O corpo também participa dessa história

Experiências prolongadas de violência e estresse emocional podem impactar o corpo.

A ciência, especialmente através da psiconeuroimunologia, demonstra que o estresse crônico pode levar a:

  • alterações hormonais
  • inflamação persistente
  • aumento da sensibilidade à dor
  • desregulação do sistema imunológico

Condições como fibromialgia e doenças autoimunes, incluindo a tireoidite de Hashimoto, têm sido associadas, em diversos estudos, a históricos de estresse emocional intenso.

É fundamental compreender que isso não significa que a mulher “causou” a doença, mas que seu corpo participou de uma história que muitas vezes não pôde ser expressa.

O corpo, nesse sentido, pode tornar visível aquilo que foi silenciado.

Romper o ciclo: da lealdade à liberdade

Romper com padrões familiares não é um movimento simples, nem imediato. Trata-se de um processo que envolve consciência, elaboração emocional e reconstrução interna.

Alguns passos importantes incluem:

  1. Nomear a violência
    Reconhecer que determinadas experiências não são normais nem aceitáveis.
  2. Compreender a própria história
    Perceber que muitos padrões não começaram na própria vida, mas foram aprendidos.
  3. Elaborar a culpa
    Entender que viver diferente da família não é traição, mas transformação.
  4. Reconstruir a autoestima
    Retomar a percepção de valor e dignidade.
  5. Criar novos referenciais de amor
    Aprender, muitas vezes pela primeira vez, que relações podem ser seguras, respeitosas e recíprocas.

A mulher em situação de violência não está apenas diante de uma relação atual — ela está, muitas vezes, diante de uma história emocional que atravessa gerações.

A lealdade familiar, quando inconsciente, pode aprisionar. Mas quando se torna consciente, pode ser transformada.

Romper esse ciclo não significa negar a própria origem. Significa honrar a vida recebida, permitindo que ela siga em uma nova direção.

E, nesse movimento, algo profundamente potente acontece:
uma mulher que se liberta não transforma apenas a própria história — ela altera o curso de toda uma linhagem emocional.

domingo, 15 de março de 2026

Doenças autoimunes e saúde mental: quando o corpo entra em alerta e a mente pede regulação

 

momentos em que o corpo deixa de responder apenas ao presente e passa a carregar, em sua fisiologia, longos períodos de sobrecarga. Nas doenças autoimunes, esse fenômeno se torna ainda mais evidente: o sistema imunológico, cuja função natural é proteger o organismo, passa a reconhecer estruturas saudáveis como ameaça e desencadeia processos inflamatórios persistentes. Esse movimento biológico não acontece separado da vida emocional. Corpo e mente compartilham vias neuroquímicas, hormonais e nervosas que se influenciam mutuamente, razão pela qual saúde mental e doenças autoimunes caminham frequentemente lado a lado.

Entre os quadros mais frequentemente observados nessa relação estão a Tireoidite de Hashimoto, a Fibromialgia e o Lúpus Eritematoso Sistêmico. Embora cada uma apresente manifestações clínicas próprias, todas envolvem algum grau de desorganização do equilíbrio inflamatório e importante impacto sobre o sistema nervoso.

Na Tireoidite de Hashimoto, a agressão imunológica progressiva à glândula tireoide reduz a produção hormonal e compromete diretamente funções cerebrais relacionadas à energia, ao humor e à clareza mental. Não é raro que a pessoa apresente fadiga persistente, lentificação do pensamento, oscilação emocional, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento que muitas vezes é inicialmente confundida com cansaço comum ou apenas tristeza prolongada.

Na fibromialgia, a dor difusa frequentemente se associa a uma sensibilização do sistema nervoso central. O cérebro passa a amplificar estímulos e a interpretar pequenos desconfortos como dor intensa. um estado de hipervigilância fisiológica em que o corpo permanece como se estivesse constantemente preparado para reagir. Essa condição frequentemente convive com alterações do sono, irritabilidade, exaustão e dificuldade de recuperação física, formando um ciclo em que dor e desgaste emocional se retroalimentam.

No lúpus, a inflamação sistêmica pode atingir múltiplos órgãos e gerar períodos de remissão e reativação. Essa imprevisibilidade clínica produz impacto psíquico importante, porque o organismo vive sob a tensão de não saber quando um novo episódio poderá surgir. A própria necessidade de monitoramento constante pode gerar ansiedade antecipatória, medo e sensação de perda de controle sobre o próprio corpo.

Neurofisiologia do estresse: por que o organismo não consegue desligar

Quando uma pessoa atravessa períodos prolongados de pressão emocional, o cérebro ativa mecanismos fisiológicos de sobrevivência. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal entra em funcionamento, levando à liberação de cortisol e adrenalina. Em situações agudas, isso é protetivo: aumenta atenção, acelera reflexos e prepara o corpo para reagir.

O problema surge quando esse sistema permanece acionado por tempo prolongado.

O excesso de cortisol altera o metabolismo inflamatório, interfere no equilíbrio imunológico, compromete neurotransmissores ligados ao humor e reduz a capacidade do organismo de retornar ao estado basal de segurança. O sistema nervoso simpático se mantém dominante: a respiração fica superficial, a musculatura permanece em tensão, o sono perde qualidade e o corpo passa a operar como se houvesse ameaça constante, mesmo em ambientes seguros.

Esse estado fisiológico ajuda a compreender por que tantas pessoas com doenças autoimunes relatam exaustão ao acordar, dificuldade de relaxar, dores persistentes, irritabilidade e sensação de mente acelerada.

Higiene do sono: parte do tratamento, não detalhe secundário

Dormir bem não é apenas descansar. Durante o sono profundo, ocorre reorganização neuroquímica, modulação imunológica, redução de mediadores inflamatórios e restauração metabólica. A privação ou fragmentação do sono aumenta ainda mais o cortisol, piora a dor, reduz tolerância emocional e enfraquece mecanismos naturais de reparação.

A higiene do sono torna-se, portanto, uma estratégia concreta de cuidado clínico.

Criar horários regulares para dormir, reduzir luz intensa no período noturno, evitar excesso de telas antes de deitar, diminuir estímulos mentais intensos e manter o ambiente escuro e silencioso são medidas que ajudam o cérebro a reconhecer segurança fisiológica.

Sono regular não resolve sozinho o adoecimento, mas sustenta parte importante da recuperação.

Uma prática simples para relaxar o nervo vago

O nervo vago é uma das principais vias do sistema parassimpático, responsável por desacelerar o organismo após períodos de alerta. Sua ativação melhora frequência cardíaca, respiração, digestão e sinaliza ao cérebro que o corpo pode sair do modo de vigilância.

Uma prática simples pode ser realizada diariamente:

Sente-se com os pés apoiados no chão. Inspire lentamente pelo nariz contando até quatro. Segure o ar por dois segundos e solte pela boca em seis tempos, prolongando a expiração. Durante a saída do ar, produza um som contínuo e suave, como “hummmmm”.

A vibração produzida auxilia a estimulação vagal, favorece desaceleração cardíaca e reduz a tensão corporal.

Cinco minutos por dia oferecem benefício fisiológico perceptível quando praticados com regularidade.

Corpo inflamado, mente em exaustão: por que é preciso olhar o conjunto

Doenças autoimunes não surgem por causa exclusiva do emocional, mas são fortemente influenciadas pela forma como o organismo lida com carga crônica de estresse, privação de recuperação e manutenção prolongada de alerta interno.

Por isso, o tratamento precisa ser ampliado: medicação, acompanhamento médico, regulação emocional, sono de qualidade, manejo do estresse e práticas de autocuidado não são dimensões separadas. São partes de um mesmo campo clínico.

Em muitos casos, cuidar da mente não significa apenas aliviar sofrimento subjetivo; significa também oferecer ao corpo condições reais de reorganização fisiológica.