terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quando o sofrimento não está apenas na mente: a importância de olhar o corpo na clínica psicológica/psicanalítica

 

Quando uma vítima chega aos meus cuidados, procuro realizar uma avaliação global dessa paciente. Muitas pessoas perguntam por que solicito alguns exames se não sou médica. A resposta é simples: não trabalho sozinha. Minha prática clínica acontece em articulação com neurologista, psiquiatra e nutricionista, porque não acredito que um único olhar seja suficiente diante da complexidade humana.

Importante? Sem dúvida.
Suficiente? Precisamos pensar sobre isso.

O sofrimento psíquico raramente pertence a uma única dimensão da existência. Corpo, história emocional, ambiente social e funcionamento neurobiológico caminham juntos. Ignorar qualquer uma dessas partes pode significar tratar apenas o sintoma visível enquanto a causa permanece ativa.

Em um dos meus plantões noturnos, certa de que seria uma noite tranquila, surgiu uma situação que reafirmou profundamente essa compreensão. O plantão era online quando recebi uma chamada de vídeo diretamente de um hospital. Do outro lado da tela estava uma paciente confusa, agitada, com fala desorganizada e já sob condução psiquiátrica emergencial.

Graças à escuta aberta do médico de plantão — um profissional sensível à abordagem integrativa — foi possível ampliar a investigação clínica. Aquilo que inicialmente caminhava para uma intervenção exclusivamente psiquiátrica tomou outro rumo. A hipótese medicamentosa mudou. Saímos de uma condução baseada apenas em psicotrópicos para a investigação hormonal.

O diagnóstico posterior confirmou uma alteração tireoidiana significativa.

Costumo dizer que não se faz terapia com o “prédio em chamas”. Utilizo essa expressão quando percebemos que a aparente desorganização psíquica está associada a disfunções orgânicas ativas. Antes de interpretar conflitos, é necessário garantir condições mínimas de estabilidade para que o sujeito possa pensar, sentir e elaborar.

Muitas vezes, esses pacientes chegam primeiro ao consultório psicológico. E isso acontece porque o sofrimento inicial é vivido como emocional. A pessoa relata ansiedade intensa, aceleração interna, insônia, irritabilidade ou sensação de perda de controle. Culturalmente, aprendemos a nomear esses estados como problemas psicológicos. Entretanto, em alguns casos, o organismo encontra-se biologicamente hiperativado.

Alterações hormonais — especialmente as relacionadas à tireoide — podem produzir agitação, taquicardia, sensação de calor intenso, pensamento acelerado e confusão mental, quadros frequentemente confundidos com crises de ansiedade, síndrome do pânico ou até surtos psiquiátricos.

O ponto fundamental é compreender que o hormônio não cria conflitos emocionais novos. Ele altera a capacidade do aparelho psíquico de lidar com aquilo que já existe.

Quando há desregulação hormonal, o cérebro entra em estado de hiperexcitação. O limiar de tolerância emocional diminui, o sono se fragmenta e o pensamento perde capacidade organizadora. Aquilo que antes era suportável torna-se insuportável. Antigas dores emocionais emergem com intensidade ampliada, não porque surgiram naquele momento, mas porque o organismo perdeu temporariamente a capacidade de regulá-las.

Do ponto de vista psicanalítico, poderíamos dizer que o ego perde parte de sua função de contenção. O sujeito passa a sentir antes de conseguir pensar sobre o que sente.

É por isso que, em determinadas situações, interpretar conflitos profundos durante uma descompensação orgânica pode aumentar ainda mais a angústia. Primeiro estabilizamos o corpo. Depois, o pensamento retorna. E somente então o trabalho analítico encontra terreno fértil.

Quando o equilíbrio hormonal é restabelecido, algo muito interessante acontece: o paciente frequentemente relata que voltou a conseguir pensar com clareza. Não se trata apenas de melhora física, mas da recuperação da capacidade simbólica — condição essencial para qualquer processo terapêutico consistente.

A clínica me ensinou que nem todo sofrimento que parece psicológico nasce exclusivamente na psique. Assim como nenhuma alteração orgânica deixa de atravessar a experiência emocional do sujeito.

Por isso, a escuta clínica precisa ser refinada. É necessário observar incoerências, perceber quando narrativa, corpo e comportamento não convergem e ter humildade suficiente para ampliar o cuidado.

Cuidar de alguém é, muitas vezes, reconhecer que mente e corpo não competem entre si. Eles se sustentam mutuamente.

E, antes de ajudar alguém a reorganizar sua história, precisamos garantir que o chão onde essa história será reconstruída esteja seguro o bastante para não desabar novamente.

Quando começamos a escutar o corpo, muitas vezes precisamos revisitar os vínculos que sustentamos. Talvez esse texto converse com você: Por que mulheres permanecem em relações violentas? A resposta está no cérebro e no apego.

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