quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quando a Armadura Cai em Silêncio

 A correria de sempre — minha, sua e de tantos — é a ilusão que sustenta o real ou é o real que dita os tempos modernos?

Ontem meu mundo caiu, mas eu permaneci.

Permaneci em mim sem colocar para fora o sentimento que bateu à porta.
De pronto, senti uma aceleração no peito que refletiu em minhas ações, gestos e até no silêncio.

Em meio ao turbilhão de pensamentos e às atividades que eu mesma havia proposto cumprir, abri a porta. Acolhi do frio e disse:
“Por ora, fique à vontade, mas não posso te oferecer moradia.”

Depois de perceber que ela — a tristeza — estava tranquila no papel que lhe cabia, voltei aos meus afazeres. Vez ou outra eu conferia se estava coberta, se queria água, comida ou chá.
E a noite cumpriu sua função silenciosa: passar o tempo.

Por falar em tempo, vinte e quatro horas foram pouco para desacelerar a queda de um mundo interno.

Enquanto a tristeza permanecia com data de checkout, fui observando o que desmoronou da fantasia e reconhecendo o cenário real. Varri o que era excesso, avaliei o que podia ocupar o novo espaço e fiz anotações mentais entre as tarefas atrasadas do cotidiano.

Eu estava comigo.
Sem abandono.
Com consciência.
Com a tristeza acomodada — e em movimento.

Sustentar a adultez requer coragem, diz o dito popular.
Hoje percebi que a primeira coragem veio da bravura, quase instinto de sobrevivência.
Mas a que permaneceu foi outra: uma coragem com consciência, menos impulso e mais escolha.

Descobri que a coragem é bem-vinda, sim.
Mas fazer companhia a si mesma é ainda mais essencial.

Foi nesse ponto — quando me escutei para não me perder — que compreendi: permanecer não é endurecer. É estar presente o suficiente para não se abandonar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O Corpo que Continua Indo — e o Silêncio que Fica

Depois de um atendimento de rotina, joguei o corpo na cadeira, o pescoço para trás, e encarei a luz no teto. Aquilo não era apenas uma lâmpada. Era um portal.

Veio-me à cabeça algo recente — não muito distante. O dia em que ouvi falar do Mounjaro. Observei o que aquele nome carregava consigo: expectativa alta e esperança. Quase uma divindade moderna.

Lembro de estar na clínica quando recebi a notícia. A primeira reação foi automática: olhar para a própria barriga denunciando alguns quilos a mais que, segundo a ciência, bastariam ser eliminados para eu atingir o “peso ideal”. Eliminar — porque perder é verbo perigoso. Perdemos e o mundo nos ensina a sair procurando depois.

Curiosa que sou, puxei o notebook e iniciei a busca. Sem mergulhar em termos técnicos, compreendi o mecanismo básico: atuação hormonal, sensação de saciedade, digestão mais lenta, o corpo recorrendo às reservas acumuladas. Uma engrenagem bioquímica perfeitamente desenhada para responder à pressa moderna — refeições corridas, horários desordenados, alimentos produzidos para gerar desejo mais do que nutrição.

Fechei o notebook. Voltei a me jogar na cadeira. Olhei novamente para a luz e, dessa vez, pensei no cérebro.

A dopamina dos feeds passou a ocupar lugares antes reservados ao silêncio: mesas, encontros, madrugadas, quartos fechados. Vive-se o que se registra. O descanso virou exceção. A melatonina parece dançar sem saber se entra ou se sai de cena. “Não há nada melhor que uma boa noite de sono” tornou-se uma frase em extinção. Qual será a próxima?

Existem fatos científicos sobre o corpo tão objetivos quanto um manual de manutenção de motor. Se até o oxigênio contribui para a deterioração celular, imagine o que acumulamos sem perceber: conservantes, agrotóxicos, estímulos luminosos, excesso de telas, pressa constante. Minha mente começou a associar tudo ao redor — alimentos, tintas, cosméticos, noites curtas. Percebi o risco de transformar informação em paranoia. Pisei no freio.

Voltei ao sentir. E o corpo respondeu.

Respira. Vitamina C combate radicais livres. Dormir mais cedo reorganiza ciclos internos. Caminhar devolve circulação. Reduzir luzes devolve ritmo. Hidratar-se limpa excessos invisíveis.

Não era uma lista de obrigações. Era um sussurro orgânico lembrando que o corpo entende o que é natural quando lhe damos espaço para lembrar.

Uma pausa. O sistema que acelera e o sistema que desacelera buscando harmonia. A máquina não como algo frio, mas como algo sábio quando não é violentado pelo excesso.

Naquele dia, senti o corpo responder como quem agradece companhia. E compreendi algo simples: ir não é apenas mover-se. Ir é acompanhar-se.

Se eu apenas sigo, sem me acompanhar, morro nos meus desejos desordenados e nos meus excessos silenciosos. E não é uma morte literal — é a morte da presença, da escolha, da força vital.

A consciência não me impede de caminhar. Ela apenas garante que eu não me perca de mim enquanto caminho.