quarta-feira, 22 de julho de 2026

Geri's Game (Pixar): O que, de fato, estava em jogo?

À primeira vista, a resposta parece simples: uma partida de xadrez, dois adversários e um prêmio, uma
dentadura. Mas será que era apenas isso?

Enquanto assistia ao curta Geri's Game, da Pixar, tive a impressão de que o verdadeiro jogo nunca aconteceu sobre o tabuleiro.

De um lado, um Geri silencioso. Seus movimentos são cautelosos, o semblante é sério e o sorriso parece ausente. Do outro, um Geri expansivo, confiante e provocador. Ele ri, desafia, comemora cada jogada e parece divertir-se não apenas com a partida, mas com a possibilidade de vencer.

Talvez não estejamos diante de um homem jogando contra si mesmo. Talvez estejamos diante de duas maneiras de existir que convivem dentro do mesmo sujeito.

Quantas vezes também nos dividimos assim?

Há dias em que somos prudentes e recolhidos. Em outros, a autoconfiança nos faz acreditar que nada poderá nos atingir. Oscilamos entre o medo e a coragem, entre a contenção e o impulso. Somos feitos dessas alternâncias.

O jogo avança até que algo inesperado acontece. O Geri mais reservado leva a mão ao peito e aparenta um mal-estar. A partida é interrompida. O adversário, até então seguro de si, abandona imediatamente a postura de quem dominava o jogo. A preocupação ocupa o lugar da euforia.

Essa cena me fez pensar que existe um ponto em que toda sensação de controle vacila. Basta que a fragilidade apareça para que nos lembremos da nossa condição humana. Nenhuma estratégia é maior do que a possibilidade da perda. Quando a vulnerabilidade entra em cena, até aquilo que parecia inabalável se reorganiza.

É justamente nesse instante que a partida muda de direção.

Ao recuperar a dentadura, o Geri silencioso finalmente sorri.

Talvez ela seja apenas o prêmio do jogo.

Mas, enquanto assistia, não consegui deixar de pensar que aquela dentadura simbolizava algo maior. Ela não devolve apenas um sorriso. Ela devolve a possibilidade de o sujeito voltar a se apresentar ao mundo. Recupera sua expressão, sua dignidade, sua presença. Como se dissesse que, apesar das perdas, ainda existe algo em nós que merece permanecer vivo.

Talvez a verdadeira disputa nunca tenha sido pela vitória, mas pela preservação desse lugar interno que continua capaz de desejar, de brincar, de criar estratégias e de sorrir.

Nem sempre venceremos nossas batalhas internas. Às vezes, seremos dominados pelo medo. Em outras, pela impulsividade, pela ansiedade ou pela tristeza. O conflito faz parte da experiência humana.

O que talvez não possamos perder é aquilo que nos permite continuar sendo nós mesmos.

Talvez a pergunta nunca tenha sido quem venceu a partida.

A verdadeira pergunta é: o que, dentro de nós, precisa ser preservado para que continuemos existindo com dignidade?

Cada pessoa possui a sua "dentadura".

Para alguns, ela tem o rosto de um filho ou de um neto. Para outros, é uma amizade, uma memória, uma vocação, um trabalho construído com sentido, uma fé que resistiu às tempestades ou um sonho que se recusou a morrer.

Não importa exatamente o que seja.

Importa reconhecê-lo antes que as perdas nos convençam de que já não vale a pena continuar.

Esta não pretende ser uma interpretação definitiva do curta. É apenas a leitura que ele despertou em mim.

Talvez você encontre outra.

E é justamente aí que reside a beleza das boas histórias: elas não terminam quando a tela escurece. Continuam vivendo em quem se permite escutá-las.

Este é um convite à reflexão sobre os muitos atravessamentos da experiência humana. Embora minha trajetória clínica seja profundamente marcada pela escuta de mulheres em situação de violência, acredito que escutar é, antes de tudo, um compromisso com o ser humano. Talvez seja esse também o sentido dos Rascunhos de Escuta: encontrar, nas histórias mais simples, perguntas que continuam nos acompanhando muito depois que elas terminam.

Assista o video aqui

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