sexta-feira, 24 de julho de 2026

Quando a noite começa: Judas, o desejo, a escolha e a violência contra a mulher

Uma leitura possível sobre livre-arbítrio, influência do mal, desejo, responsabilidade e a morte do objeto de desejo

Este texto não pretende refutar o Evangelho, tampouco estabelecer uma verdade definitiva sobre a narrativa de Judas. Propõe, antes, uma nova perspectiva de leitura sobre aquilo que aprendemos, não para substituir a fé, mas para ampliar o olhar e nos convidar a pensar sobre o que talvez ainda não tenhamos perguntado.

Há leituras bíblicas que nos fazem parar. Foi assim que aconteceu comigo ao reler o Evangelho de João. Eu já conhecia a história de Judas, sua traição e seu desfecho, mas, dessa vez, uma sequência narrativa me fez voltar ao texto.

Em João 13, durante a Última Ceia, Jesus anuncia que um dos discípulos o trairá. Judas recebe o pedaço de pão e João afirma: "E, tendo Judas recebido o bocado, imediatamente Satanás entrou nele." Então Jesus lhe diz: "O que você está fazendo, faça-o depressa." Judas sai. E João acrescenta: "E era noite."

A sequência é quase cinematográfica: Judas está entre os discípulos, recebe o bocado, Satanás entra nele, Jesus fala, Judas sai. E então vem a noite.

Em João, luz e trevas são categorias teológicas fundamentais. Por isso, essa informação aparentemente cronológica ganha uma dimensão simbólica: Judas sai da presença de Jesus e entra na noite.

Isso é muito forte.

Mas surge uma pergunta: Jesus estava falando com Judas ou com Satanás?

O texto grego de João 13:27 registra a fala dirigida a Judas: ho poieis, poieson tachion, algo próximo de "O que você está fazendo, faça-o depressa." Gramaticalmente, o destinatário imediato é Judas. O texto não diz que Jesus estava falando diretamente com Satanás.

Podemos, então, pensar em diferentes níveis de leitura. Literalmente, Jesus fala com Judas, que executará aquilo que decidiu fazer. Teologicamente, Jesus fala com Judas, mas reconhece que há uma força espiritual atuando naquela ação. Simbolicamente, Jesus não precisa discutir com Satanás: ele permite que aquilo que já está em movimento aconteça.

E aqui surge algo ainda mais perturbador:

Jesus não impede Judas.

Então precisamos perguntar: Judas poderia ter feito diferente?

Essa talvez seja a pergunta central. Existe, no Novo Testamento, uma tensão profunda entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. A morte de Jesus está inserida no plano das Escrituras, mas Judas continua sendo responsabilizado por sua traição.

Se Satanás entrou em Judas, Judas deixou de ser responsável?

A tradição cristã, de modo geral, responde que não. A influência do mal não transforma Judas em um robô. Ele continua conversando, negociando, recebendo dinheiro e participando conscientemente da entrega de Jesus.

Isso nos leva a outra questão: Satanás entrou em Judas porque Judas estava vulnerável ao mal, ou Judas tornou-se vulnerável porque Satanás entrou nele?

O texto não responde diretamente.

Mas existe uma sequência anterior que merece atenção. Em João 12:6, Judas já havia sido apresentado como alguém que roubava da bolsa comum dos discípulos. Quando chegamos a João 13, portanto, a entrada de Satanás não precisa ser compreendida necessariamente como o começo da história. Pode ser o ápice de um processo.

Judas não parece ser um homem que desconhecia Jesus. Ele caminhou com ele, ouviu seus ensinamentos, presenciou milagres e participou da comunidade dos discípulos. Ele conhecia aquilo que Jesus ensinava. E, ainda assim, escolheu outra direção.

Talvez o problema não tenha sido falta de conhecimento, mas um conflito entre conhecimento e desejo.

E aqui entra uma questão que atravessa tanto a compreensão teológica quanto a experiência humana: quando seguimos os desejos da carne, estamos necessariamente escolhendo o mal?

Na tradição paulina, "carne" não significa simplesmente corpo, nem significa que todo desejo seja mau. O problema não está em desejar. A questão é: quem governa o desejo?

Talvez seja essa a chave da distinção entre um modo egocêntrico e um modo cristocêntrico. Não se trata de dizer que todo desejo é mau, mas de perguntar qual princípio ocupa o centro da decisão. O desejo existe, mas não precisa ser soberano.

Talvez Judas não tenha começado dizendo: "Quero fazer o mal." Talvez tenha começado simplesmente querendo alguma coisa para si.

E é aí que o processo se torna assustadoramente humano.

O mal, muitas vezes, não começa com a intenção consciente de fazer o mal. Pode começar com um desejo que encontra uma justificativa. Depois, uma racionalização. Em seguida, uma pequena concessão. Até que o sujeito começa a colocar seu desejo acima do princípio que dizia seguir.

Primeiro: "Eu quero isso." Depois: "Eu mereço isso." Em seguida: "Não é tão grave." Até chegar a: "Agora não tem mais volta."

Não como uma fórmula universal, mas como uma possibilidade de compreender como uma decisão moral pode ser construída gradualmente.

E então voltamos à frase de Jesus:

"O que você está fazendo, faça-o depressa."

E se Jesus não estivesse ordenando Judas a traí-lo?

E se estivesse reconhecendo uma decisão que Judas já havia tomado?

Essa possibilidade muda a leitura da cena. Jesus não precisa manipular Judas, obrigá-lo ou convencê-lo. Ele simplesmente reconhece aquilo que já está em movimento.

E Judas sai.

E era noite.

Talvez a noite não seja apenas uma informação sobre o horário. Talvez João esteja mostrando a direção que Judas escolheu. Ele sai fisicamente da ceia, mas, simbolicamente, também sai da luz.

Não porque tenha perdido a capacidade de pensar.

Mas porque passou a pensar a partir de outro centro.

E então surge outra pergunta: Judas conseguiu prever as consequências de sua escolha?

Aqui precisamos fazer uma distinção importante. A ideia popular de que uma emoção intensa dura apenas "trinta segundos" é uma simplificação. Uma resposta emocional pode começar rapidamente, mas sua experiência subjetiva, a ruminação e a ativação fisiológica podem durar muito mais. Ainda assim, uma reação impulsiva é diferente de uma decisão construída.

Em Mateus, Judas procura os sacerdotes e pergunta: "O que me dareis, e eu vo-lo entregarei?" Existe negociação. Existe avaliação de benefício. Existe acordo. Existe decisão.

Pensamento. Possibilidade. Negociação. Acordo. Oportunidade. Execução.

Se pensarmos na categoria bíblica de pecado premeditado, podemos perguntar: o pecado começa na ação ou começa quando a pessoa começa a negociar internamente com aquilo que sabe que não deveria fazer?

E então surge outra questão:

Quando João afirma que Satanás entrou em Judas, estamos diante do início da decisão ou do momento em que uma decisão já construída chega ao seu ponto de concretização?

Não sabemos.

Mas talvez essa pergunta nos permita compreender que a influência do mal não precisa substituir a decisão humana. Pode encontrar desejos, vulnerabilidades e escolhas que já estão em movimento.

Judas, então, torna-se uma figura ainda mais complexa. Ele nos coloca diante de uma pergunta que continua atual:

Até onde vai a liberdade humana quando alguém está submetido a forças que o ultrapassam?

Essa pergunta dialoga profundamente com a Psicanálise. O sujeito não é completamente transparente para si mesmo. Existem desejos, conflitos, fantasias e forças inconscientes que participam de suas escolhas. Mas reconhecer essas determinações não significa eliminar toda responsabilidade.

Talvez seja justamente nessa tensão que Judas permaneça tão atual.

Deus sabe, mas saber não significa necessariamente obrigar. O conhecimento divino não precisa ser a causa da escolha humana. Judas poderia ter feito diferente?

Talvez sim.

Mas não fez.

E é exatamente isso que torna sua história tão trágica.

A partir daqui, a narrativa bíblica pode nos conduzir a uma reflexão contemporânea sobre a violência contra a mulher.

Não para dizer que Judas representa um agressor. Não para afirmar que todo agressor funciona como Judas. E muito menos para transformar a Bíblia em um manual de psicopatologia. A proposta é investigar se alguns elementos dessa narrativa podem nos ajudar a pensar fenômenos humanos que ainda atravessam nossa sociedade.

Porque a violência contra a mulher também nos obriga a perguntar:

Em que momento uma pessoa deixa de enxergar o outro como sujeito e passa a enxergá-lo como objeto de seu desejo, de sua conquista, de seu poder ou de sua posse?

Algumas violências são impulsivas. Outras são construídas durante meses ou anos. Existem situações que envolvem controle, vigilância, manipulação, ameaça, isolamento e violência patrimonial. Há atos violentos que não acontecem porque o agressor "perdeu o controle", mas porque buscou deliberadamente controlar a vida da mulher.

Por isso, não podemos explicar toda violência como um simples "sequestro emocional". Existem violências precedidas por pensamentos, justificativas, racionalizações e decisões. Assim como a traição de Judas, em nossa hipótese de leitura, não parece nascer de um único instante, algumas violências também não começam no momento em que o ato acontece. Elas podem ser construídas muito antes.

E aqui a reflexão sobre Judas encontra uma questão especialmente delicada:

O que acontece quando o desejo não suporta a existência do outro para além da própria fantasia?

Essa pergunta nos leva, com todos os cuidados necessários, a determinados casos de feminicídio seguidos de suicídio. Não como explicação universal, mas em situações nas quais a mulher é vivenciada pelo homem como objeto de posse, e sua separação é experimentada como uma perda intolerável. Ela decide partir. Escolhe. Diz não. Passa a existir sem ele.

Em situações extremas, a morte do outro pode aparecer como uma tentativa de impedir a separação. E, posteriormente, a própria morte pode acontecer.

São fenômenos diferentes e não podem ser igualados. Mas ambos podem nos conduzir a uma pergunta comum:

O que acontece quando alguém não consegue suportar a perda do objeto que organizava seu desejo?

Talvez seja aqui que a hipótese da morte do objeto de desejo ganhe uma dimensão particularmente profunda na história de Judas.

Talvez Judas não tenha perdido apenas Jesus. Talvez tenha perdido, junto com Jesus, a imagem de mundo que sustentava seu desejo. Talvez o objeto real não correspondesse ao objeto imaginado. Talvez a realidade tenha destruído a fantasia.

Não sabemos se foi isso que aconteceu. O texto bíblico não nos autoriza a afirmar uma única motivação. Pode ter havido ganância, frustração, ambição, expectativas messiânicas, desencantamento, influência espiritual ou uma combinação de fatores que jamais conseguiremos reconstruir completamente.

Mas podemos perguntar.

E talvez seja essa a função de uma leitura como esta.

Judas desejou.

Judas foi influenciado.

Judas escolheu.

Judas agiu.

E talvez não tenha conseguido antecipar toda a extensão de sua escolha.

Quando finalmente encontrou a consequência, já não havia caminho de volta.

Jesus morreu.

E Judas também.

Talvez a tragédia esteja justamente aí: o desejo que governou Judas acabou destruindo aquilo que ele desejava e, depois, destruiu também aquele que desejou.

E talvez essa seja uma das perguntas que precisamos levar para além das páginas da Bíblia e colocar diante da violência contra a mulher: não apenas o que acontece no instante em que a violência se manifesta, mas o que foi sendo construído antes dela.

O desejo de possuir.

A dificuldade de aceitar limites.

A incapacidade de reconhecer a autonomia do outro.

A recusa da separação.

A impossibilidade de elaborar a perda.

Porque ninguém pertence a ninguém.

O outro é sempre outro.

E talvez o amor só seja possível quando conseguimos suportar essa verdade.

Judas saiu.

E era noite.

Talvez a noite não comece quando perdemos a consciência.

Talvez ela comece quando, conscientes, permitimos que o desejo governe nossas escolhas e deixamos de enxergar o outro como sujeito.

E talvez seja justamente aí que essa antiga história continue falando conosco.

Não para nos oferecer respostas prontas.

Mas para nos obrigar a fazer perguntas que ainda não terminamos de responder.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Geri's Game (Pixar): O que, de fato, estava em jogo?

À primeira vista, a resposta parece simples: uma partida de xadrez, dois adversários e um prêmio, uma
dentadura. Mas será que era apenas isso?

Enquanto assistia ao curta Geri's Game, da Pixar, tive a impressão de que o verdadeiro jogo nunca aconteceu sobre o tabuleiro.

De um lado, um Geri silencioso. Seus movimentos são cautelosos, o semblante é sério e o sorriso parece ausente. Do outro, um Geri expansivo, confiante e provocador. Ele ri, desafia, comemora cada jogada e parece divertir-se não apenas com a partida, mas com a possibilidade de vencer.

Talvez não estejamos diante de um homem jogando contra si mesmo. Talvez estejamos diante de duas maneiras de existir que convivem dentro do mesmo sujeito.

Quantas vezes também nos dividimos assim?

Há dias em que somos prudentes e recolhidos. Em outros, a autoconfiança nos faz acreditar que nada poderá nos atingir. Oscilamos entre o medo e a coragem, entre a contenção e o impulso. Somos feitos dessas alternâncias.

O jogo avança até que algo inesperado acontece. O Geri mais reservado leva a mão ao peito e aparenta um mal-estar. A partida é interrompida. O adversário, até então seguro de si, abandona imediatamente a postura de quem dominava o jogo. A preocupação ocupa o lugar da euforia.

Essa cena me fez pensar que existe um ponto em que toda sensação de controle vacila. Basta que a fragilidade apareça para que nos lembremos da nossa condição humana. Nenhuma estratégia é maior do que a possibilidade da perda. Quando a vulnerabilidade entra em cena, até aquilo que parecia inabalável se reorganiza.

É justamente nesse instante que a partida muda de direção.

Ao recuperar a dentadura, o Geri silencioso finalmente sorri.

Talvez ela seja apenas o prêmio do jogo.

Mas, enquanto assistia, não consegui deixar de pensar que aquela dentadura simbolizava algo maior. Ela não devolve apenas um sorriso. Ela devolve a possibilidade de o sujeito voltar a se apresentar ao mundo. Recupera sua expressão, sua dignidade, sua presença. Como se dissesse que, apesar das perdas, ainda existe algo em nós que merece permanecer vivo.

Talvez a verdadeira disputa nunca tenha sido pela vitória, mas pela preservação desse lugar interno que continua capaz de desejar, de brincar, de criar estratégias e de sorrir.

Nem sempre venceremos nossas batalhas internas. Às vezes, seremos dominados pelo medo. Em outras, pela impulsividade, pela ansiedade ou pela tristeza. O conflito faz parte da experiência humana.

O que talvez não possamos perder é aquilo que nos permite continuar sendo nós mesmos.

Talvez a pergunta nunca tenha sido quem venceu a partida.

A verdadeira pergunta é: o que, dentro de nós, precisa ser preservado para que continuemos existindo com dignidade?

Cada pessoa possui a sua "dentadura".

Para alguns, ela tem o rosto de um filho ou de um neto. Para outros, é uma amizade, uma memória, uma vocação, um trabalho construído com sentido, uma fé que resistiu às tempestades ou um sonho que se recusou a morrer.

Não importa exatamente o que seja.

Importa reconhecê-lo antes que as perdas nos convençam de que já não vale a pena continuar.

Esta não pretende ser uma interpretação definitiva do curta. É apenas a leitura que ele despertou em mim.

Talvez você encontre outra.

E é justamente aí que reside a beleza das boas histórias: elas não terminam quando a tela escurece. Continuam vivendo em quem se permite escutá-las.

Este é um convite à reflexão sobre os muitos atravessamentos da experiência humana. Embora minha trajetória clínica seja profundamente marcada pela escuta de mulheres em situação de violência, acredito que escutar é, antes de tudo, um compromisso com o ser humano. Talvez seja esse também o sentido dos Rascunhos de Escuta: encontrar, nas histórias mais simples, perguntas que continuam nos acompanhando muito depois que elas terminam.

Assista o video aqui