quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Nem Sempre a Escuta é Silêncio. Às Vezes, a Escuta Precisa se Levantar.



Quando a nova paciente entrou, algo me atravessou antes mesmo de sua fala.

Corpo encurvado, olhar no chão, silêncio pesado.
Uma imagem antiga me veio à mente — e logo me questionei:
Que postura é essa, analista? Comparar antes de ouvir?

É aí que entra a suspensão.
Não negar o que se percebe, mas impedir que o registro interno se imponha ao que ainda vai se revelar.
Não é contratransferência.
É leitura colocada em espera.

Ela sentou dobrada sobre si.
A carga emocional era visível.
O trabalho começou na delicadeza do primeiro encontro e seguiu em repetições silenciosas.
Em certo momento, pedi que trouxesse a mãe.
Não por dependência — mas porque a ideação suicida passiva atravessava todas as sessões como um fio invisível.
Era risco real.

Depois daquele encontro, comecei a chamá-la “de cima”.
Não com ordens, mas com microconvites: um ajuste de postura, um respiro, um olhar que se eleva.
O corpo começou a acompanhar o que a mente ainda não nomeava.

Os passos mudaram.
O tom mudou.
E quando tudo parecia florescer, uma tragédia atravessou o caminho.
Nessas horas, o analista não cai — ele sustenta a queda.

Um dia ela chegou desmoronada.
E ali ficou evidente: o terapeuta também se constrói enquanto analisa.
Naquela sessão, não bastava técnica.
Era preciso presença.

Levantei.
Música suave.
Com permissão, toquei seus ombros.
E ela desabou.

Há momentos em que a linguagem não é palavra.
É oferecer chão para que alguém desça sem se perder.

Nem sempre a escuta é silêncio.
Às vezes, a escuta precisa se levantar.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quando a Armadura Cai em Silêncio

 A correria de sempre — minha, sua e de tantos — é a ilusão que sustenta o real ou é o real que dita os tempos modernos?

Ontem meu mundo caiu, mas eu permaneci.

Permaneci em mim sem colocar para fora o sentimento que bateu à porta.
De pronto, senti uma aceleração no peito que refletiu em minhas ações, gestos e até no silêncio.

Em meio ao turbilhão de pensamentos e às atividades que eu mesma havia proposto cumprir, abri a porta. Acolhi do frio e disse:
“Por ora, fique à vontade, mas não posso te oferecer moradia.”

Depois de perceber que ela — a tristeza — estava tranquila no papel que lhe cabia, voltei aos meus afazeres. Vez ou outra eu conferia se estava coberta, se queria água, comida ou chá.
E a noite cumpriu sua função silenciosa: passar o tempo.

Por falar em tempo, vinte e quatro horas foram pouco para desacelerar a queda de um mundo interno.

Enquanto a tristeza permanecia com data de checkout, fui observando o que desmoronou da fantasia e reconhecendo o cenário real. Varri o que era excesso, avaliei o que podia ocupar o novo espaço e fiz anotações mentais entre as tarefas atrasadas do cotidiano.

Eu estava comigo.
Sem abandono.
Com consciência.
Com a tristeza acomodada — e em movimento.

Sustentar a adultez requer coragem, diz o dito popular.
Hoje percebi que a primeira coragem veio da bravura, quase instinto de sobrevivência.
Mas a que permaneceu foi outra: uma coragem com consciência, menos impulso e mais escolha.

Descobri que a coragem é bem-vinda, sim.
Mas fazer companhia a si mesma é ainda mais essencial.

Foi nesse ponto — quando me escutei para não me perder — que compreendi: permanecer não é endurecer. É estar presente o suficiente para não se abandonar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O Corpo que Continua Indo — e o Silêncio que Fica

Depois de um atendimento de rotina, joguei o corpo na cadeira, o pescoço para trás, e encarei a luz no teto. Aquilo não era apenas uma lâmpada. Era um portal.

Veio-me à cabeça algo recente — não muito distante. O dia em que ouvi falar do Mounjaro. Observei o que aquele nome carregava consigo: expectativa alta e esperança. Quase uma divindade moderna.

Lembro de estar na clínica quando recebi a notícia. A primeira reação foi automática: olhar para a própria barriga denunciando alguns quilos a mais que, segundo a ciência, bastariam ser eliminados para eu atingir o “peso ideal”. Eliminar — porque perder é verbo perigoso. Perdemos e o mundo nos ensina a sair procurando depois.

Curiosa que sou, puxei o notebook e iniciei a busca. Sem mergulhar em termos técnicos, compreendi o mecanismo básico: atuação hormonal, sensação de saciedade, digestão mais lenta, o corpo recorrendo às reservas acumuladas. Uma engrenagem bioquímica perfeitamente desenhada para responder à pressa moderna — refeições corridas, horários desordenados, alimentos produzidos para gerar desejo mais do que nutrição.

Fechei o notebook. Voltei a me jogar na cadeira. Olhei novamente para a luz e, dessa vez, pensei no cérebro.

A dopamina dos feeds passou a ocupar lugares antes reservados ao silêncio: mesas, encontros, madrugadas, quartos fechados. Vive-se o que se registra. O descanso virou exceção. A melatonina parece dançar sem saber se entra ou se sai de cena. “Não há nada melhor que uma boa noite de sono” tornou-se uma frase em extinção. Qual será a próxima?

Existem fatos científicos sobre o corpo tão objetivos quanto um manual de manutenção de motor. Se até o oxigênio contribui para a deterioração celular, imagine o que acumulamos sem perceber: conservantes, agrotóxicos, estímulos luminosos, excesso de telas, pressa constante. Minha mente começou a associar tudo ao redor — alimentos, tintas, cosméticos, noites curtas. Percebi o risco de transformar informação em paranoia. Pisei no freio.

Voltei ao sentir. E o corpo respondeu.

Respira. Vitamina C combate radicais livres. Dormir mais cedo reorganiza ciclos internos. Caminhar devolve circulação. Reduzir luzes devolve ritmo. Hidratar-se limpa excessos invisíveis.

Não era uma lista de obrigações. Era um sussurro orgânico lembrando que o corpo entende o que é natural quando lhe damos espaço para lembrar.

Uma pausa. O sistema que acelera e o sistema que desacelera buscando harmonia. A máquina não como algo frio, mas como algo sábio quando não é violentado pelo excesso.

Naquele dia, senti o corpo responder como quem agradece companhia. E compreendi algo simples: ir não é apenas mover-se. Ir é acompanhar-se.

Se eu apenas sigo, sem me acompanhar, morro nos meus desejos desordenados e nos meus excessos silenciosos. E não é uma morte literal — é a morte da presença, da escolha, da força vital.

A consciência não me impede de caminhar. Ela apenas garante que eu não me perca de mim enquanto caminho.

sábado, 31 de janeiro de 2026

De Onde o Analista Escuta

Entre o silêncio que adoece e o som que liberta

Havia uma enfermaria branca, ruídos de passos apressados, cheiros de antisséptico e o tempo medido por prontuários. Mas, em alguns leitos, o que se deita não é apenas um corpo — é uma história suspensa entre o que pôde ser dito e o que precisou sobreviver calado.

Ela lembrava apenas um nome. Tudo era esse nome. Água era esse nome. Comida era esse nome. Pergunta era esse nome. O mundo havia se estreitado a uma única palavra, como se o psiquismo tivesse escolhido um ponto mínimo para não se despedaçar por inteiro. À primeira vista, poderia parecer confusão, amnésia, sintoma neurológico. Mas, às vezes, o que se perde não é a memória — é a possibilidade de sustentar a própria narrativa sem que o corpo entre em colapso.

Quando uma pessoa responde sempre a mesma coisa, não é apenas repetição. É defesa. É o inconsciente tentando organizar o insuportável dentro de um limite possível. A palavra única funciona como muro e também como porta. Protege, mas também denuncia que há algo pressionando do outro lado.

O analista não escuta apenas o conteúdo da fala. Escuta o que se repete, o que falta, o que não encaixa, o que o corpo faz enquanto a boca tenta explicar. Escuta o tremor da mão, o nó na garganta, o olhar que evita, o silêncio que pesa mais que qualquer frase. Escutar é perceber que, muitas vezes, o sujeito não adoece por aquilo que viveu — adoece pelo que não pôde simbolizar.

Naquele encontro, não havia divã, setting ou neutralidade técnica possível. Havia urgência psíquica. Havia um corpo que não queria levantar, não queria comer, não queria falar. Havia uma vida em suspensão. E havia, sobretudo, um grito preso.

O grito é uma linguagem primitiva e legítima. Antes da palavra organizada, o ser humano grita. O recém-nascido não explica sua dor — ele a emite. O grito não é descontrole; é descarga. É o momento em que o corpo devolve ao mundo aquilo que não conseguiu metabolizar sozinho. Na clínica tradicional, muitas vezes o grito é simbolizado pela fala. Mas, quando a fala falha, o grito retorna como necessidade vital.

Escutar de onde o analista escuta é compreender que não se trata de ouvir apenas o que é socialmente aceitável. Trata-se de sustentar o que é humano em estado bruto. O hospital não é consultório, a enfermaria não é espaço terapêutico, e ainda assim o sofrimento não aguarda o lugar ideal para emergir. Há momentos em que a intervenção não é técnica, é ética. Não é protocolo, é presença.

Quando aquela mulher pediu permissão para gritar, o que ela pedia, na verdade, era autorização para existir sem embargo. O corpo que treme depois do grito não está “fora de controle”; está reorganizando um sistema que por anos precisou permanecer rígido para sobreviver. O tremor é o retorno da circulação psíquica. É o afrouxamento daquilo que foi endurecido pelo trauma.

A psicanálise ensina que o sintoma é uma tentativa de solução. A amnésia, a palavra repetida, a recusa do banho, da comida, da fala — tudo isso não era fracasso psíquico. Era esforço de manutenção. O colapso não é o fim da estrutura; muitas vezes é o início da possibilidade de reconstrução.

Existe uma diferença sutil entre escutar o barulho e escutar o sentido. O barulho incomoda. O sentido transforma. Nem sempre o ambiente suporta o processo que antecede a reorganização interna do sujeito. O mundo prefere o silêncio organizado ao ruído libertador. Mas há silêncios que matam lentamente, e há gritos que devolvem fôlego.

O analista escuta de um lugar onde o sintoma não é inimigo, é mensagem. Onde o silêncio não é ausência, é excesso comprimido. Onde o corpo não é obstáculo, é texto vivo. Escuta do lugar onde o sujeito ainda respira, mesmo quando tudo ao redor interpreta apenas o comportamento observável.

Depois do grito veio o choro. Depois do choro, a fala. Depois da fala, o gesto simples de querer levantar, comer, tomar banho. Pequenos movimentos que, para quem observa de fora, parecem rotinas. Para quem escuta por dentro, são sinais de retorno ao próprio eixo. O desejo voltando a circular. O corpo deixando de ser campo de batalha para voltar a ser morada.

Nem sempre é possível acompanhar a travessia inteira. Nem sempre há continuidade clínica. Mas há encontros que funcionam como pontes — breves, intensos, decisivos. Não resolvem a vida do sujeito, mas devolvem a ele a possibilidade de caminhar com as próprias pernas.

Talvez o analista escute justamente desse ponto invisível entre o que o mundo chama de exagero e o que a psique chama de sobrevivência. Escuta do lugar onde o grito não é desordem, é reorganização. Onde o silêncio não é paz, é prisão. Onde o sintoma não é falha, é tentativa de viver apesar de tudo.

E talvez existam gritos que nos matam quando permanecem presos.
E outros que, quando autorizados, nos devolvem o ar.

Quantos gritos ainda tentamos engolir para caber no silêncio do mundo?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Nem Todo Gesto é Violência.

Há gestos que não são sobre o que parecem ser.
São sobre o que não pôde ser dito.
Arrancar plantas, espalhar a terra, desorganizar o jardim.


À primeira vista, destruição.
À escuta simbólica, desespero.
Terra, planta e o jardineiro.
A terra que gera, sustenta — e também enterra.
A planta arrancada como quem grita: “tirem minha filha de lá.”
Quando a morte atravessa o que é insuportável, o corpo fala.
A mão arranca aquilo que ainda cresce porque, internamente, nada mais pode florescer.
E o jardineiro?
Aquele que deveria cuidar.
Que deveria proteger o tempo do crescimento, o limite, o risco.
Que jardineiro é esse que lança a semente e abandona?
Que semeia, mas não permanece?
Que permite que algo tão frágil seja deixado à própria sorte?
Nem todo gesto é violência.
Alguns são luto bruto.
Outros, denúncia silenciosa da ausência de cuidado.
Às vezes, o jardim não foi destruído.
Ele apenas revelou o que já estava morto antes.