Veio-me à cabeça algo recente — não muito distante. O dia em que ouvi falar do Mounjaro. Observei o que aquele nome carregava consigo: expectativa alta e esperança. Quase uma divindade moderna.
Lembro de estar na clínica quando recebi a notícia. A primeira reação foi automática: olhar para a própria barriga denunciando alguns quilos a mais que, segundo a ciência, bastariam ser eliminados para eu atingir o “peso ideal”. Eliminar — porque perder é verbo perigoso. Perdemos e o mundo nos ensina a sair procurando depois.
Curiosa que sou, puxei o notebook e iniciei a busca. Sem mergulhar em termos técnicos, compreendi o mecanismo básico: atuação hormonal, sensação de saciedade, digestão mais lenta, o corpo recorrendo às reservas acumuladas. Uma engrenagem bioquímica perfeitamente desenhada para responder à pressa moderna — refeições corridas, horários desordenados, alimentos produzidos para gerar desejo mais do que nutrição.
Fechei o notebook. Voltei a me jogar na cadeira. Olhei novamente para a luz e, dessa vez, pensei no cérebro.
A dopamina dos feeds passou a ocupar lugares antes reservados ao silêncio: mesas, encontros, madrugadas, quartos fechados. Vive-se o que se registra. O descanso virou exceção. A melatonina parece dançar sem saber se entra ou se sai de cena. “Não há nada melhor que uma boa noite de sono” tornou-se uma frase em extinção. Qual será a próxima?
Existem fatos científicos sobre o corpo tão objetivos quanto um manual de manutenção de motor. Se até o oxigênio contribui para a deterioração celular, imagine o que acumulamos sem perceber: conservantes, agrotóxicos, estímulos luminosos, excesso de telas, pressa constante. Minha mente começou a associar tudo ao redor — alimentos, tintas, cosméticos, noites curtas. Percebi o risco de transformar informação em paranoia. Pisei no freio.
Voltei ao sentir. E o corpo respondeu.
Respira. Vitamina C combate radicais livres. Dormir mais cedo reorganiza ciclos internos. Caminhar devolve circulação. Reduzir luzes devolve ritmo. Hidratar-se limpa excessos invisíveis.
Não era uma lista de obrigações. Era um sussurro orgânico lembrando que o corpo entende o que é natural quando lhe damos espaço para lembrar.
Uma pausa. O sistema que acelera e o sistema que desacelera buscando harmonia. A máquina não como algo frio, mas como algo sábio quando não é violentado pelo excesso.
Naquele dia, senti o corpo responder como quem agradece companhia. E compreendi algo simples: ir não é apenas mover-se. Ir é acompanhar-se.
Se eu apenas sigo, sem me acompanhar, morro nos meus desejos desordenados e nos meus excessos silenciosos. E não é uma morte literal — é a morte da presença, da escolha, da força vital.
A consciência não me impede de caminhar. Ela apenas garante que eu não me perca de mim enquanto caminho.

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