segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Pausa e a Vaca

Eu fazia parte de um grupo de trilha em Bom Despacho.

Era quase um ritual de sábado: arrumar a mochila com frutas, água, toalha, vestir a camisa térmica, a legging, as botas, trocar os óculos de grau pelos escuros, prender a juba e seguir para o ponto de encontro.

Cada sábado trazia um roteiro diferente e, junto dele, uma pausa necessária das atividades cotidianas.

Sempre gostei de música clássica. Depois de um dia difícil, procuro meu canto de silêncio em casa com certo entusiasmo ritualístico.
Mas é no silêncio da trilha que eu realmente me reorganizo.

Cada ser humano recarrega a própria bateria à sua maneira.

O caminho escolhido naquele dia eu ainda não conhecia.
Descíamos uma montanha, subíamos outra, e o cume do momento era sempre o lugar de parar: lanche, respiração, presença.
O corpo em movimento, mas a mente pousando.

Na descida, encontramos um bando de vacas.
Ali senti o coração disparar como em maratona.
Vencemos o obstáculo e pensei, aliviada: cinquenta vacas aqui, nenhuma lá em cima.

Seguimos.
Atravessamos um riacho, paramos para hidratar sob um abacateiro e observamos como os prédios distantes contrastavam com o verde majestoso do mato. A paisagem rendeu fotos — como quase toda trilha rende — mas o que ficou não foi a imagem, foi a sensação.

O melhor ainda estava por vir.
Um caminho em forma de túnel, criado naturalmente por árvores que entrelaçaram suas copas como quem promete permanência. A sombra acolhia o corpo exausto da subida. A temperatura abraçava. A brisa acariciava o rosto com delicadeza de recepção.

Cem metros que devolviam a pausa mesmo com os pés em movimento.
Os passos já não eram apressados.
Os olhos observavam o chão com respeito.
O silêncio ali não era ausência de som — era oração de reconexão. Um abraço na alma.

Não existia a pressa diurna. Existia presença.
O ruído dos motores foi substituído pelo canto das cigarras e pela algazarra dos pássaros, como se reconhecessem nossa passagem e, ao mesmo tempo, nos lembrassem que aquele território não nos pertencia.

Eu seguia distraída com a cantoria, envolvida pela brisa que parecia dançar ao redor do corpo, quando um mugido rompeu o estado de relaxamento e acionou imediatamente meu instinto de defesa.

Ela estava no final do caminho.
Parada.
Olhando.

Peguei um pedaço de graveto sem pensar muito.
Na mente, um pensamento atravessou tudo:
Você não vai estragar minha pausa.

Avancei mais por coragem improvisada do que por bravura real.
Eu estava em bando.
Ela recuou.
E só então percebemos: ela também não estava sozinha.

Agora era a nossa vez de recuar — e pensar rápido.
Ao lado do caminho havia o tronco de uma árvore tombada.
Virou nosso recurso.
Subimos ali, cada uma com um galho na mão, gritando “xô” em timbres descoordenados que misturavam medo e riso.

Elas nos olharam com uma serenidade quase filosófica, como quem se pergunta se havia ganho um espetáculo gratuito.
Não demorou muito para que nos tornássemos irrelevantes.
Seguiram seu caminho.
E nós, ainda com o coração acelerado e o riso solto, seguimos o nosso.

Houve medo.
Houve descarga de adrenalina.
Houve gargalhadas.
Mas, sobretudo, houve silêncio sustentando cada experiência vivida naquele dia.

Percebi então que a pausa não é ausência de movimento.
É a capacidade de permanecer presente, mesmo quando o inesperado atravessa o percurso.

Pausa de 3 Minutos – Onde Você Está Agora? 

Pare por alguns segundos.

Olhe ao seu redor como se estivesse em uma trilha pela primeira vez.

  • Onde seu corpo está apoiado agora?

  • Sua respiração está curta ou profunda?

  • Há alguma parte do seu corpo em tensão que você não tinha percebido?

Agora observe o ambiente ao redor como quem atravessa um “túnel de árvores” em meio ao dia comum e use os quatro sentidos para descrever:

  • Um som distante.

  • Uma cor.

  • Uma textura.

  • Um cheiro, se houver.

Perceba que você não saiu do lugar, mas algo em você mudou apenas por olhar com presença.

Assim como na trilha, o inesperado pode surgir — uma notificação, um pensamento, uma lembrança.
Em vez de reagir imediatamente, apenas note.

Respire uma vez mais, lenta e conscientemente.
Não é sobre controlar o momento.
É sobre acompanhar-se dentro dele.

Se em poucos segundos você conseguiu perceber algo que antes passava despercebido, imagine o que pode descobrir quando transforma essa pausa em hábito.

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