Na psicanálise, a autoestima não é entendida como um conceito isolado ou apenas como “gostar de si”. Ela é vista como um efeito da constituição do sujeito, profundamente relacionada à formação do eu (ego), às experiências primárias de vínculo e à maneira como o indivíduo internaliza as figuras significativas de sua história. Em outras palavras, a psicanálise não pergunta apenas “quanto a pessoa se valoriza?”, mas principalmente “de onde vem essa medida interna de valor?”.
Desde Sigmund Freud, o tema aparece vinculado ao narcisismo, termo que, no campo psicanalítico, não possui inicialmente o sentido pejorativo popular. Freud descreve o narcisismo primário como uma etapa natural do desenvolvimento infantil, na qual a libido está voltada para o próprio eu. É uma fase necessária para a construção da identidade. Posteriormente, ao longo das relações com o mundo externo, esse investimento libidinal se desloca para objetos e pessoas, configurando o narcisismo secundário. Quando esse movimento encontra rupturas ou frustrações intensas, podem surgir fragilidades na autoestima, pois o sujeito perde referências internas de valor e passa a depender excessivamente da validação externa.
Outro ponto central na visão psicanalítica é o papel do superego, instância psíquica ligada às normas, proibições e ideais internalizados. Uma autoestima muito baixa, na perspectiva clínica, pode estar associada a um superego excessivamente rígido, crítico e punitivo, que mantém o sujeito em permanente sentimento de insuficiência. Já uma autoestima inflada pode indicar defesas narcísicas que encobrem inseguranças profundas. Assim, a psicanálise tende a desconfiar tanto da autodepreciação constante quanto do autoengrandecimento exagerado, entendendo ambos como manifestações de conflitos internos.
Autores pós-freudianos ampliaram essa compreensão. Melanie Klein relacionou o valor de si às experiências iniciais de amor e cuidado, mostrando como sentimentos de culpa e reparação influenciam a imagem interna. Donald Winnicott introduziu a noção de verdadeiro self e falso self, indicando que a autoestima saudável surge quando a pessoa pode existir de forma autêntica, sem precisar se moldar excessivamente para atender expectativas externas. Já Jacques Lacan destacou o papel do estádio do espelho, momento simbólico em que o sujeito se reconhece como imagem e começa a construir sua identidade, revelando que a autoestima está intrinsecamente ligada à forma como o indivíduo se vê e é visto pelo outro
Na prática clínica, a psicanálise compreende a autoestima como um resultado da história relacional do sujeito, e não como um traço fixo ou simplesmente uma habilidade a ser treinada. Ela emerge do modo como a pessoa foi desejada, reconhecida, frustrada e simbolizada ao longo da vida. Por isso, o trabalho terapêutico não se concentra em afirmações positivas ou exercícios de reforço direto, mas na elaboração das experiências inconscientes que estruturaram o sentimento de valor pessoal.
Conclui-se que, para a psicanálise, autoestima é menos um “nível” a ser aumentado e mais um efeito de reconciliação interna entre desejo, identidade e história. Ela se fortalece quando o sujeito pode reconhecer suas faltas sem se anular, sustentar seus desejos sem culpa excessiva e construir uma narrativa de si que não dependa exclusivamente do olhar do outro.
Quer transformar reflexão em ação? Conheça o e-book "Se Apaixone Por Cuidar de Si Mesma" clicando aqui .

Sem comentários:
Enviar um comentário
Seu comentário é bem-vindo.
Respeito é essencial.