Como a normalização da violência e a sobrecarga de informação estão nos afastando da nossa própria humanidade
Abrir qualquer meio de comunicação hoje em dia tem me provocado um profundo desânimo.
Atuo diretamente no enfrentamento à violência contra a mulher e o que vejo não é apenas alarmante — é desestruturante. Existe uma violência crescente, uma omissão gritante e um abismo entre os números apresentados e a realidade vivida. Sabemos que as estatísticas não dão conta do cenário real, porque muitas mulheres sequer conseguem denunciar. O silêncio ainda é um dos maiores cúmplices da violência.
Mas há algo além dos números que me inquieta profundamente: sinto que estamos atravessando um colapso nas referências do masculino e do feminino, como se a própria estrutura social estivesse em processo de desorganização.
De um lado, movimentos como os chamados redpill operam a partir de ressentimento e hostilidade contra mulheres. De outro, observo distorções dentro do próprio movimento feminista, onde, em alguns espaços, a radicalização perde o eixo e enfraquece a essência da luta. No meio disso tudo, o que se instala é um ruído ensurdecedor — e, paradoxalmente, um silenciamento brutal do essencial.
É inconcebível que mulheres precisem andar armadas com spray de pimenta, canivetes ou armas de choque para garantir o mínimo de segurança — e ainda assim, muitas, inclusive treinadas, continuam sendo mortas por armas de fogo.
É devastador assistir a casos em que homens ferem ou matam crianças como forma de atingir mulheres. Isso não é apenas violência. É um colapso ético. Um cenário que, em muitos momentos, se assemelha a um verdadeiro espetáculo de horror.
A sensação que me atravessa, sempre que paro para olhar com mais atenção, é a de que fomos, de alguma forma, hipnotizados. Como se estivéssemos vivendo em estado de inércia coletiva.
Observo discursos, comportamentos, reações — e o que vejo é uma população, em grande parte, paralisada. Não por falta de informação, mas talvez por excesso dela, sem elaboração.
Recentemente assisti ao documentário O Dilema das Redes, na Netflix. O que mais me impactou não foram apenas as revelações, mas o tom dos próprios criadores das redes sociais: não havia orgulho, havia preocupação. Muitos deles se afastaram das próprias criações ao perceberem os efeitos colaterais que ajudaram a desencadear.
A chamada “engenharia da manipulação” tem avançado silenciosamente — e vencido. A atenção, hoje, tem dono. E quando a atenção é capturada, a capacidade crítica começa a se deteriorar.
Estamos assistindo a uma realidade em que notícias de feminicídio, estupro ou tentativas de violência extrema começam a ser recebidas com uma naturalidade assustadora. Como se o absurdo tivesse sido incorporado ao cotidiano.
Falamos muito. Agimos pouco.
A informação perdeu espaço para o espetáculo. O sofrimento virou conteúdo. A dor virou consumo.
E a psicoeducação — que poderia ser um caminho de transformação — vai sendo empurrada para as margens, porque não gera o mesmo impacto imediato que o choque, o escândalo ou a indignação momentânea.
O problema, muitas vezes, deixou de ser tratado como algo a ser compreendido e transformado, e passou a ser utilizado como produto. Não é o fato de cobrar pelo cuidado em saúde mental que me inquieta — isso é legítimo. O que causa estranhamento é a forma como esse cuidado vem sendo, em alguns contextos, esvaziado, acelerado e, por vezes, superficializado.
No meio de tudo isso, o que mais me preocupa não é apenas a violência em si, mas a normalização dela.
Porque quando o horror deixa de nos mobilizar, corremos o risco de perder não apenas a capacidade de reagir — mas a própria capacidade de sentir.
Um convite à consciência
Antes de seguir para a próxima tela, faça uma pausa.
Respire fundo e se pergunte, com honestidade:
- O que, dentro de mim, ainda se incomoda com tudo isso?
- Em quais momentos eu percebo que estou apenas assistindo, sem agir?
- Que tipo de violência eu tenho normalizado — dentro ou fora de mim?
Agora, escreva.
Sem filtro, sem julgamento.
A consciência começa quando aquilo que estava difuso ganha nome.
E talvez o primeiro passo para romper qualquer anestesia seja esse:
voltar a sentir — e sustentar o que se sente.





